Sociedade sem Estado: como viviam os Mapuches antes dos espanhóis

Sociedade sem Estado: como viviam os Mapuches antes dos espanhóis

A organização Mapuche baseava-se no lof, unidade familiar que garantia autonomia e subsistência. Foto: Reprodução
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Santiago, Chile – Compreender a estrutura social dos Mapuches pré-coloniais exige romper com a visão etnocêntrica dos conquistadores. Historiadores e antropólogos destacam que a sociedade indígena foi frequentemente rotulada como “Behetría” — termo usado para designar grupos “sem rei, sem fé e sem lei”. No entanto, o que os espanhóis interpretavam como carência era, na verdade, uma organização descentralizada e altamente funcional.

Diferente das civilizações europeias, os Mapuches não possuíam uma autoridade centralizada ou Estado. Isso ocorria porque sua economia, baseada na caça, coleta e pequena agricultura, não gerava excedentes que justificassem o acúmulo de riqueza ou a criação de sistemas de domínio de um grupo sobre outro.

A família como unidade fundamental

A estrutura sociopolítica básica era o lof (ou ruka), um agrupamento de famílias extensas ligadas pela consanguinidade. O líder, conhecido como lonko, exercia uma “chefia” baseada no prestígio e no serviço à comunidade, e não no poder impositivo.

A sociedade não apresentava uma divisão de trabalho que fosse além da unidade familiar, o que impedia a formação de sistemas senhoriais. Conflitos internos eram raros, uma vez que a abundância de terras eliminava a necessidade de demarcações rígidas ou disputas por recursos.

Sistemas de alianças e o papel dos toquis

Embora fossem autônomos, os Mapuches possuíam mecanismos sofisticados de integração social:

  • Quiñelob: Integração de vários lof para cooperação econômica e defesa.

  • Lebo ou Rehue: Instância onde se resolviam questões de paz, guerra e rituais.

  • Ayllarehue: Aliança de nove rehues para grandes conflitos, mantendo a autonomia de cada unidade.

  • Futamapu: A “terra grande”, formada por vários ayllarehues.

Para regular conflitos, recorria-se aos “grandes sábios”, que atuavam como toquis em tempos de paz. Eles não possuíam poder permanente; sua autoridade era delegada pelas partes envolvidas e, no cotidiano, viviam como qualquer outro membro da comunidade.

Uma estrutura harmônica com a natureza

Diferente da imagem do “bom selvagem”, a evidência histórica aponta para uma sociedade que não conhecia a escassez nem a guerra permanente. Tratava-se de uma estrutura harmônica, capaz de desenvolver plenamente seus membros em um ambiente de recursos abundantes.

Em suma, a organização Mapuche pré-hispânica não era caótica, mas obedecia a uma lógica distinta da ocidental. Foi uma sociedade que conseguiu crescer e prosperar sem a necessidade de governantes centralizados ou reinados, estabelecendo um modelo de convivência que até hoje desafia as definições tradicionais de civilização.

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