Cidade do México, México – Doze anos após o ataque e o desaparecimento forçado de 43 estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa — instituição pública histórica que forma professores para comunidades do campo —, as famílias das vítimas ocuparam o Zócalo na noite deste sábado, 26 de setembro, para denunciar o encobrimento militar mantido pelo governo de Claudia Sheinbaum. Com o Palácio Nacional às costas, os manifestantes cobraram a quebra de sigilo sobre 853 arquivos da inteligência do Exército e a volta imediata dos peritos do Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes (GIEI).
O bloqueio imposto pelas Forças Armadas permanece como o principal obstáculo para solucionar o caso ocorrido em 26 de setembro de 2014, na cidade de Iguala. Em 19 de fevereiro deste ano, o Quinto Juizado Distrital em Matéria Administrativa da Cidade do México acatou um recurso das famílias e reconheceu uma lacuna de cerca de 853 documentos elaborados pelo Centro Regional de Fusão de Inteligência de Iguala. Conforme detalhou o Centro Prodh, essa omissão indica que a Secretaria da Defesa Nacional esconde relatórios sobre a espionagem em tempo real e o destino dos jovens na noite dos ataques. Mesmo após a decisão da Justiça favorável aos parentes, o Estado mexicano ingressou com recursos legais para travar o repasse dos papéis.
No palanque montado na praça central da capital mexicana, as famílias criticaram Sheinbaum pelo descumprimento de compromissos públicos. A presidente havia prometido divulgar um relatório detalhado sobre as investigações na sexta-feira, 25 de setembro, mas não entregou o documento.
“Novos governos chegam e apenas encobrem o Exército”, afirmou Mario César González, pai do estudante César Manuel González. Ele desafiou a Presidência e a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) a comprovarem a inocência dos quartéis: “Apresentem suas provas, se é que as têm. Porque nós temos provas”. Mario César relatou a decepção com a mandatária, de quem esperava sensibilidade por seu passado ligado ao movimento estudantil e por sua condição de mulher e mãe: “Eu confiava neles, mas eles me decepcionaram”.
O tempo de espera cobra um preço biológico alto dos parentes que envelhecem sem respostas. O advogado Isidoro Vicario Aguilar destacou que, ao longo de doze anos, oito mães e pais morreram adoecidos sem saber o paradeiro dos filhos. O caso mais recente foi o de Francisco Rodríguez Morales, pai de Everardo Rodríguez Bello, falecido em 21 de agosto passado; sua companheira, Minerva Bello, já havia morrido em 2018. “Nossa vida está chegando ao fim. Por favor, ajudem-nos a pedir isso pelas redes sociais, com um vídeo. Já estamos cansados, temos doenças crônicas”, apelou Mario César à multidão reunida no centro histórico.
Magdalena, mãe de outro futuro professor desaparecido, explicou do palco por que os arquivos sigilosos são centrais para desatar o nó da investigação: “Que o Exército entregue os mais de 800 documentos, porque talvez ali esteja a resposta sobre onde estão nossos filhos”. Ela também exigiu que os trabalhos levem em conta as análises e linhas de apuração abertas pelos peritos legistas argentinos.
A cobrança sobre Sheinbaum inclui a reincorporação do GIEI, comissão vinculada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Os últimos dois especialistas do grupo, Ángela Buitrago e Carlos Martín Beristain, deixaram o México no fim de julho de 2023 após divulgarem seu sexto relatório oficial, no qual denunciaram que os militares monitoravam os passos dos estudantes enquanto a emboscada acontecia e que as autoridades do Ministério da Defesa bloquearam reiteradamente o acesso a dados previamente localizados pelos técnicos.
Emiliano Navarrete, pai de José Ángel Navarrete González, afirmou que a cumplicidade atravessa três mandatos presidenciais — Enrique Peña Nieto, Andrés Manuel López Obrador e o atual: “O desaparecimento dos 43 estudantes e o assassinato de outros três foram um crime orquestrado pelos três níveis de governo: municipal, estadual e federal”. As famílias também voltaram a cobrar a extradição de Tomás Zerón, ex-chefe da Agência de Investigação Criminal refugiado em Israel, apontado como o principal responsável pela montagem de depoimentos sob tortura e pela criação da farsa da versão oficial inicial.
A marcha de quase duas horas começou às 17h06 no monumento do Anjo da Independência e seguiu pelo Paseo de la Reforma até a rua 5 de Mayo, acompanhada à distância por forças policiais que não intervieram no percurso. Às 17h40, os manifestantes pararam em frente ao memorial conhecido como antimonumento +43, onde leram os nomes de cada um dos alunos sumidos sob o coro de “¡Presentación con vida!”. O ato recordou ainda as mortes cometidas naquela noite, entre elas a de Julio César Mondragón Fuentes — torturado e encontrado com a pele do rosto arrancada —, outros dois jovens executados a bala e um quarto estudante que permanece hospitalizado em coma vegetativo. Cartazes erguidos por caravanas de professores rurais e estudantes traziam mensagens de revolta: “Que os olhos dos desaparecidos persigam você em seus sonhos e que o choro de suas mães não o deixe dormir”.
A marcha do caso Ayotzinapa também atraiu famílias de pessoas desaparecidas recentemente no México, evidenciando uma crise que segue ativa no país. Atanasio Piña caminhou carregando o retrato de seu filho Yuristi, assassinado após sumir aos 27 anos em setembro de 2024. “Somos vítimas do crime e das omissões do governo. Existem milhares de órgãos do governo, mas nenhum apresenta resultados”, denunciou Olín Vargas, cujo filho Hernando Vargas desapareceu no bairro de Ajusco em novembro de 2024 e permanece sumido.
A mobilização no Zócalo terminou ao anoitecer com os manifestantes entoando o hino “Venceremos” e reafirmando que as famílias não aceitarão o esquecimento judicial nem a impunidade dos chefes militares.



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