Discord tem 3 dias para suspender transmissões ao vivo no país

Discord tem 3 dias para suspender transmissões ao vivo no país

Suspensão preventiva ocorre após morte de jovem de 13 anos induzida ao suicídio em transmissão ao vivo investigada pela polícia.

Função "Go Live" do Discord foi temporariamente suspensa por falhas na proteção de menores. Foto: Reprodução/Internet.
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Brasília, DF – A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou, nesta quarta-feira (12), que o aplicativo de comunicação Discord suspenda preventivamente as transmissões ao vivo e o compartilhamento de vídeos no Brasil. A medida cautelar foi adotada para frear episódios de violência e coação psicológica contra menores de 18 anos, após a morte de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí (MS), induzida ao autoextermínio durante uma exibição em tempo real na plataforma. A empresa tem prazo de três dias para cumprir a ordem e pode recorrer da decisão em até dez dias úteis.

A determinação da Superintendência de Fiscalização da ANPD exige a interrupção da funcionalidade conhecida como “Go Live”, usada em servidores fechados. Segundo a agência reguladora, a medida cautelar visa proteger crianças e adolescentes e vigorará até que a empresa comprove a adoção de ações concretas e eficazes para mitigar os riscos de exposição, recomendação e acesso a conteúdos ilegais ou violentos. O órgão esclareceu que a plataforma em si não foi bloqueada no país, mantendo o funcionamento das demais ferramentas de texto e áudio.

O caso que motivou a intervenção governamental ocorreu em 22 de julho e foi objeto da Operação Lívia, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. As investigações apuram a atuação de uma organização criminosa voltada para a atração de crianças e jovens a comunidades virtuais. Nesses ambientes restritos, as vítimas eram submetidas à coerção psicológica para realizar desafios de automutilação, atos de violência extrema contra animais — principalmente gatos — e autoextermínio.

A primeira fase da Operação Lívia resultou na apreensão de cinco adolescentes com idades entre 13 e 17 anos e na prisão de um homem de 18 anos. Além do Mato Grosso do Sul, policiais civis cumpriram oito mandados de busca e apreensão nos estados do Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro.

Falhas na detecção e arquitetura técnica

A decisão cautelar é desdobramento de um processo formal de fiscalização instaurado pela ANPD contra o Discord na última sexta-feira (7). De acordo com nota oficial emitida pela autarquia, a instrução técnica identificou “falhas na implementação de medidas estruturais e de procedimentos para prevenir e combater violações graves”. A fiscalização aponta que a empresa falhou em adotar providências razoáveis para conter o incitamento à violência, à automutilação e ao suicídio.

A agência destacou que a função “Go Live” vinha sendo utilizada de forma reiterada para o cometimento de crimes graves contra a integridade física e mental de menores. Um dos principais gargalos apontados pelo órgão regulador reside na própria arquitetura técnica da plataforma.

“Pela arquitetura técnica adotada, o Discord não tem acesso ao conteúdo das transmissões de vídeo enquanto elas ocorrem, o que inviabiliza a utilização, no âmbito do servidor, de mecanismos de análise do conteúdo audiovisual e detecção em tempo real de violações. A plataforma depende de sistemas automatizados falhos e de denúncias dos próprios participantes desses ambientes voltados à prática dessas violações”, detalhou a ANPD.

A imposição da medida preventiva não impede o prosseguimento do processo administrativo de fiscalização nem a aplicação de eventuais penalidades futuras. Caso fiquem comprovadas irregularidades permanentes ao fim da apuração, a agência poderá exigir medidas corretivas adicionais e aplicar as sanções previstas no ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), cujas multas operacionais podem atingir até R$ 50 milhões por infração cometida.

Posição da plataforma

Em nota oficial, o Discord afirmou que mantém interlocução contínua com as autoridades públicas brasileiras, incluindo o Ministério da Justiça, e que atua proativamente no repasse de informações às forças de segurança para auxiliar em prisões e investigações.

A empresa reiterou que “não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência” e ressaltou a existência de equipes dedicadas a desarticular comunidades ilícitas, remover conteúdos contrários às suas diretrizes e responsabilizar os usuários infratores. A plataforma manifestou a expectativa de prosseguir no diálogo com formuladores de políticas públicas no Brasil para assegurar um ambiente virtual mais seguro.

Sobre a morte da jovem de Naviraí, o Discord informou que atuou em cooperação com as autoridades policiais. Segundo a empresa, um servidor privado no qual suspeitos incentivavam a automutilação da vítima foi identificado, investigado e desativado antes da confirmação do falecimento. A empresa ressaltou ainda que o acesso a esse espaço dependia de convites diretos, sem visibilidade para os demais usuários da rede, e defendeu que suas denúncias internas foram determinantes para a identificação e detenção de extremistas violentos.


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