*Editorial Fronteira Livre
Foz do Iguaçu gosta de se apresentar como cidade da convivência. E tem motivos para isso. Fronteira com Paraguai e Argentina, reúne cerca de 95 nacionalidades e 29 grupos étnicos. Poucos lugares no Brasil exibem com tanta facilidade a própria diversidade. O problema é que diversidade, sem proteção pública e sem coerência institucional, vira slogan.
Os fatos recentes desmontam esse discurso.
Em fevereiro, duas mulheres muçulmanas foram agredidas dentro de um shopping da cidade, com violência física, ofensas xenofóbicas e ataque ao hijab que usavam. No mesmo período, um vídeo com ofensas a religiões de matriz africana, gravado durante o Carnaval da Brasil, foi denunciado à polícia como possível crime de discriminação religiosa. Em junho, um centro de umbanda denunciou ameaças, insultos e pedradas contra sua fachada. Não são episódios desconexos. São manifestações distintas de um mesmo padrão: quando a religião atacada é a do outro, a violência costuma encontrar desculpa, relativização e silêncio.
Mas há um ponto ainda mais grave, porque revela a falha do próprio poder público: a violação da laicidade no ambiente escolar.
Segundo denúncia encaminhada pela APP-Sindicato à Secretaria de Estado da Educação, estudantes de um colégio cívico-militar de Foz do Iguaçu foram expostos à fala de um grupo de intercambistas norte-americanos que apresentou Andrew Jackson, escravista e figura historicamente ligada à violência contra povos indígenas, como exemplo de líder que “fez boas escolhas”. A atividade também teria incluído execução do hino dos Estados Unidos e pregação religiosa sem autorização prévia das famílias.
Isso não é intercâmbio cultural. Isso é invasão ideológica do espaço público.
Escola pública não é púlpito. Não é campo de missão religiosa. Não é espaço para catequese disfarçada de atividade educativa. Quando agentes religiosos entram no ambiente escolar para pregar, impor valores confessionais e exaltar personagens ligados à escravidão e ao massacre indígena, o Estado deixa de proteger a pluralidade e passa a escolher lado.
É aqui que a intolerância religiosa se conecta diretamente ao Estado laico.
Porque o problema não está apenas no agressor que ataca mulheres muçulmanas ou no homem que joga pedras em um terreiro. O problema também está na hierarquia silenciosa entre crenças. Umas recebem respeito automático. Outras ainda precisam justificar o próprio direito de existir. Umas entram na escola como se fossem portadoras naturais de valores universais. Outras seguem sendo empurradas para o noticiário policial, para o deboche ou para a condição de alvo legítimo.
É por isso que a laicidade não pode ser tratada como formalidade. Estado laico não é enfeite constitucional. É garantia concreta de liberdade. Serve para impedir que uma religião capture a escola pública, se imponha sobre as demais e use a estrutura estatal para se legitimar. Serve para proteger quem é minoria. Serve para assegurar que o espaço público pertença a todos, e não apenas aos que se julgam moralmente autorizados a falar em nome de Deus.
A contradição de Foz está exposta. A cidade repudia, com razão, ataques a muçulmanas e a terreiros. Mas permite, ou ao menos não bloqueia com o rigor necessário, a entrada de grupos religiosos em escolas públicas. Condena a intolerância em nota oficial e relativiza a violação da laicidade na prática. Esse duplo padrão não é detalhe administrativo. É parte do mecanismo que sustenta a intolerância.
Nesse contexto, a decisão da Câmara Municipal de Foz do Iguaçu de derrubar o veto parcial do Executivo ao Projeto de Lei nº 323/2025, que cria um protocolo de prevenção e enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa nas escolas públicas e privadas, aponta na direção correta. O mesmo vale para a moção de repúdio ao ataque contra o Ilê Asé Iemanjá e Oxóssi com Caboclo Sete Léguas. O Legislativo reconheceu que não há democracia escolar possível quando o preconceito circula sem barreira.
Mas isso, por si só, não resolve o essencial.
Não basta aprovar protocolo e tolerar catequese em escola pública. Não basta repudiar ataques a terreiros e abrir espaço institucional para grupos religiosos atuarem sobre estudantes. Não basta celebrar a diversidade de Foz em discursos turísticos enquanto a proteção real segue desigual.
Uma cidade verdadeiramente diversa não escolhe quais crenças merecem respeito. Não oferece blindagem moral para umas e exposição permanente à violência para outras. Não trata a escola pública como território disponível para evangelização, propaganda ideológica ou colonialismo simbólico.
Foz do Iguaçu precisa decidir se quer ser apenas vitrine da diversidade ou guardiã da diversidade.
Enquanto o poder público tratar a intolerância como exceção e a laicidade como detalhe, a pluralidade seguirá servindo mais à propaganda da cidade do que à proteção de quem vive nela.
*Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.



















