Desigualdade e fome desafiam narrativa de prosperidade nos EUA

Desigualdade e fome desafiam narrativa de prosperidade nos EUA

Crescimento econômico beneficia os mais ricos enquanto milhões enfrentam insegurança alimentar.

Pesquisa revela contraste entre crescimento econômico e precarização social. Foto: Reverendo John Udo-Okon - via AP
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Washington (EUA) – A maior economia do mundo produz riqueza em níveis sem precedentes, lidera mercados financeiros globais e concentra algumas das empresas mais valiosas do planeta. Ainda assim, um número crescente de famílias norte-americanas enfrenta dificuldades para colocar comida na mesa.

Um estudo divulgado pelo Federal Reserve de Nova York revelou um aumento significativo da insegurança alimentar nos Estados Unidos, especialmente entre famílias de baixa renda, com menor escolaridade e com crianças pequenas. Os dados foram coletados por meio da Pesquisa sobre Expectativas do Consumidor e mostram um cenário que desafia a narrativa tradicional de prosperidade associada ao país.

Segundo os pesquisadores, mais famílias recorreram a doações de alimentos, assistência governamental e às próprias economias para sobreviver do que em levantamentos realizados durante o período inicial da pandemia de Covid-19. O estudo identifica um “aumento notável” da insegurança alimentar e uma deterioração das perspectivas econômicas entre os grupos mais vulneráveis da população.

Entre os entrevistados, cerca de 10% relataram ter deixado de fazer refeições por falta de alimentos em casa. Quase 16% dependeram de doações de alimentos. Entre as famílias com renda anual inferior a US$ 50 mil, aproximadamente uma em cada cinco afirmou ter enfrentado situações de privação alimentar.

Os números ajudam a compreender uma contradição crescente dentro da sociedade norte-americana: enquanto indicadores macroeconômicos continuam apontando crescimento, parte significativa da população vive uma realidade marcada por endividamento, inflação persistente, insegurança financeira e dificuldades para atender necessidades básicas.

Os pesquisadores utilizam a expressão “economia em formato de K” para explicar o fenômeno. Em uma ponta estão famílias mais ricas, beneficiadas pela valorização de ativos financeiros, crescimento patrimonial e recuperação dos mercados. Na outra estão trabalhadores e famílias de renda média e baixa que acumulam dificuldades relacionadas ao custo de vida, financiamentos, cartões de crédito e empréstimos estudantis.

A fome, nesse contexto, não aparece apenas como consequência da pobreza. Ela se transforma em indicador de uma desigualdade estrutural que atravessa a sociedade norte-americana.

A insegurança alimentar produz impactos que vão muito além da ausência de refeições. Afeta a saúde física, agrava problemas psicológicos, compromete o desempenho escolar de crianças e adolescentes e reduz perspectivas de mobilidade social. Trata-se de um problema econômico, mas também de saúde pública e de direitos humanos.

O próprio estudo aponta que o aumento da insegurança alimentar caminha lado a lado com o crescimento do pessimismo econômico. As expectativas de encontrar emprego diminuíram justamente entre os grupos mais afetados pelas dificuldades financeiras.

O resultado é uma queda da confiança dos consumidores para níveis próximos ou inferiores aos observados durante a pandemia e a crise financeira global de 2007 e 2008.

Os dados também levantam um debate político inevitável.

Por décadas, os Estados Unidos foram apresentados ao mundo como símbolo de prosperidade econômica e oportunidade individual. O avanço da insegurança alimentar em uma das sociedades mais ricas do planeta coloca em evidência uma pergunta difícil de ignorar: até que ponto o crescimento econômico pode ser considerado um sucesso quando parcelas significativas da população enfrentam dificuldades para acessar aquilo que deveria ser um direito básico — a alimentação?

A resposta não está apenas nos números divulgados pelo Federal Reserve. Ela passa pela forma como a riqueza é distribuída, pelas prioridades adotadas pelas políticas públicas e pela capacidade de uma democracia garantir condições dignas de vida para a sua população.

Fonte original do estudo: https://libertystreeteconomics.newyorkfed.org/2026/05/food-insecurity-and-consumer-pessimism/


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