Por Giovanni Antunes
Toda vez que uma mulher é assassinada por ser mulher, o país assiste a mais um capítulo de uma tragédia que insiste em se repetir. Os números mudam de ano para ano, os rostos das vítimas são diferentes, mas a estrutura que produz essa violência permanece assustadoramente semelhante.
É comum que o debate sobre feminicídio se concentre no momento do crime. Discute-se a ação do agressor, a resposta do Estado, as falhas da segurança pública e a necessidade de punição. Tudo isso é importante. Mas existe uma pergunta anterior que precisa ser feita: de onde vem a violência?
Nenhum ato surge do nada.
Existe um mecanismo de repetição social que atravessa gerações. Comportamentos, crenças e formas de enxergar o mundo são aprendidos, reproduzidos e naturalizados ao longo do tempo. Homens não nascem acreditando que possuem poder sobre a vida das mulheres. Eles são formados dentro de uma sociedade que, durante séculos, construiu relações desiguais entre os gêneros e transformou essas desigualdades em algo aparentemente normal.
A violência contra as mulheres possui raízes profundas na formação histórica da nossa sociedade. Ela dialoga com heranças da escravidão, do colonialismo, do patriarcado e de estruturas religiosas e culturais que ajudaram a consolidar a ideia de submissão feminina como parte da ordem social.
Por isso, enfrentar o feminicídio exige mais do que repressão ao crime. Exige compreender como a violência é produzida e reproduzida.
E é exatamente nesse ponto que a educação se torna um tema central.
Mulheres não podem morrer simplesmente por serem mulheres.
Se queremos impedir que novas gerações continuem reproduzindo comportamentos violentos, precisamos reconhecer que a escola é muito mais do que um espaço destinado à transmissão de conteúdos. A escola é um ambiente de formação humana, cidadã e política. É nela que políticas públicas debatidas em outras esferas ganham materialidade. É nela que crianças e adolescentes entram em contato com diferentes formas de pensar, conviver e compreender a sociedade.
A ideia de que a educação se limita à transferência de conhecimento sempre foi uma simplificação perigosa. A relação entre professor e estudante envolve formação crítica, construção de valores e desenvolvimento da capacidade de interpretar o mundo.
A pandemia deixou evidente algo que muitos educadores já afirmavam há décadas: educação não é apenas acesso a conteúdo. A experiência do homeschooling mostrou os limites da tentativa de substituir a escola por processos isolados de aprendizagem. A educação é uma ciência. E, como toda ciência, possui métodos, objetivos e funções sociais que ultrapassam a simples transmissão de informações.
Ignorar esse papel significa ignorar uma das principais ferramentas de transformação social existentes.
O machismo estrutural que sustenta a violência contra as mulheres não está presente apenas na política, na economia, nas instituições religiosas ou nos meios de comunicação. Ele também está presente nos espaços educativos.
Está nas expectativas diferentes construídas para meninos e meninas. Está na naturalização de determinados comportamentos. Está nos estereótipos reproduzidos diariamente. Está na ideia de que existem profissões, funções ou lugares específicos para homens e mulheres.
Em muitos casos, está até mesmo na seleção dos conteúdos que circulam dentro das escolas.
Por isso, combater a violência contra as mulheres exige enfrentar também o machismo educacional.
A pergunta é inevitável: como superar algo tão profundamente enraizado na sociedade?
Como romper estruturas que continuam determinando o que é considerado “coisa de homem” e “coisa de mulher”?
Como disputar a formação de uma geração que cresce em meio ao avanço de discursos misóginos, da cultura red pill e dos grupos que transformam ressentimento em ódio organizado contra mulheres?
Esses fenômenos não surgem isoladamente na internet. Eles são resultado de disputas políticas, culturais e ideológicas que atravessam toda a sociedade.
Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de discutir igualdade de gênero dentro das escolas passou a enfrentar campanhas sistemáticas de desinformação. Durante anos, setores conservadores transformaram expressões como “ideologia de gênero” e “kit gay” em instrumentos de guerra cultural. O objetivo nunca foi melhorar a educação. O objetivo foi impedir o debate.
Enquanto isso, mulheres continuaram morrendo.
O resultado dessa estratégia é conhecido. A discussão sobre violência de gênero foi deslocada do campo dos direitos humanos para o campo do medo e da desinformação. Professores passaram a ser tratados como suspeitos. Escolas passaram a ser atacadas por abordarem temas relacionados ao respeito, à diversidade e à cidadania.
Mas a realidade permanece.
A violência contra as mulheres continua sendo uma das expressões mais brutais da desigualdade social existente em nosso tempo.
Diante disso, defender a educação não é apenas defender uma política pública. É defender uma ferramenta concreta de enfrentamento à violência.
A quebra dos estereótipos de gênero não resolverá sozinha o problema do feminicídio. Mas pode representar um dos primeiros passos para impedir que novas gerações reproduzam as mesmas estruturas que alimentam o ciclo da violência.
O Fronteira Livre assume o compromisso de manter vivo esse debate porque ele não diz respeito apenas à educação. Diz respeito à vida.
Quando uma sociedade abandona a discussão sobre igualdade, respeito e direitos humanos, ela cria as condições para que a violência continue sendo reproduzida.
Temos instrumentos poderosos para enfrentar essa realidade. Nenhum deles dispara projéteis. Nenhum deles produz morte.
Eles produzem consciência.
E consciência transforma sociedades.
Por isso, a sala de aula continua sendo um lugar de poder.
E disputar esse espaço significa disputar o futuro.
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