Brasília, DF – Um manifesto político escrito para provocar reflexão entre os eleitores brasileiros ganhou batidas, rimas e voz na internet em pleno período de campanha. Batizada nas redes sociais de “Rap da Lucidez”, a faixa adapta um texto assinado pelo advogado e sociólogo Julio Benchimol Pinto. A mensagem central abandona a exaltação partidária e aposta em um apelo pragmático: o voto como barreira de contenção contra o avanço do autoritarismo no país.
O argumento central não exige adesão afetiva ou alinhamento irrestrito à figura de Luiz Inácio Lula da Silva. Em vez disso, o autor propõe que o eleitor fixe uma linha ética intransponível diante das urnas. “Eu não lhe peço entusiasmo; peço limite”, afirma Benchimol em um dos trechos centrais do manifesto. O texto enumera episódios recentes de confronto institucional no Brasil, trazendo à memória os ataques diretos desferidos contra as urnas eletrônicas, o sistema judiciário, o trabalho da imprensa, os professores e a produção científica.
Para o autor, a escolha eleitoral supera a simpatia individual por nomes ou legendas e se converte em uma decisão sobre a sobrevivência do pacto civilizatório. Em outra passagem que repercute na versão rimada, o jurista crava: “há horas em que a urna não nos pergunta quem nos encanta, mas apenas se ainda sabemos distinguir civilização de barbárie”.
A estrutura original, formulada com frases curtas e repetições marcadas, facilitou a transposição para as métricas da cultura hip-hop. O material, que começou a circular como artigo e postagem em aplicativos de mensagens, passou a se espalhar por meio de vídeos musicados, transformando o apelo em um manifesto sonoro voltado às disputas de 2026. A mensagem reconhece de forma explícita que o eleitor pode desaprovar o presidente, manter críticas duras à sua gestão ou até mesmo votar nele sem qualquer sentimento de alegria. O foco analítico do autor mira o polo oposto da disputa eleitoral, caracterizado no texto pelo golpismo, pela radicalização contínua e pelo ódio mobilizado como método político. A tese central sustenta que a prioridade do momento histórico não é o carisma político, mas a lucidez cívica.
Julio Benchimol Pinto tem trajetória acadêmica ligada ao direito e às ciências sociais. É doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e cumpriu temporadas de pós-doutorado nas universidades de Oxford, no Reino Unido, e Duke, nos Estados Unidos.
A circulação da reflexão começou meses antes do formato musical. Há registros de publicações do manifesto digitalmente entre março e abril de 2026, com republicações sucessivas em diferentes páginas. Em setembro, a mensagem voltou a ganhar fôlego público ao sair no Portal RED sob a manchete: “Não estou lhe pedindo amor por Lula; estou lhe pedindo horror à barbárie”. Com a roupagem do rap, a produção encerra seu circuito, reforçando o chamado que a originou: “Não estou lhe pedindo paixão, estou lhe implorando lucidez”.



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