Cesário Lange, SP – As Testemunhas de Jeová flexibilizaram as regras internas que tratam do recebimento e da doação de componentes sanguíneos. A mudança doutrinária foi divulgada na última sexta-feira (18) em boletim oficial publicado no site da denominação cristã e abre espaço para que os próprios fiéis decidam, de forma individual, sobre o uso de quatro partes específicas do sangue: glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma e plaquetas. A proibição histórica de transfusão de sangue total, contudo, segue mantida pela liderança global da religião.
De acordo com o comunicado, a escolha de aceitar ou doar qualquer um desses quatro componentes passa a ser considerada uma questão de consciência pessoal de cada membro. Até então, a rigidez doutrinária em torno de procedimentos médicos envolvendo sangue gerava frequentes impasses em hospitais, disputas judiciais sobre autonomia de pacientes e debates éticos entre médicos e familiares em situações de risco de morte.
Apesar da abertura para frações sanguíneas, a transfusão de sangue total continua vetada sem exceções. O Corpo Governante, colegiado que lidera as Testemunhas de Jeová, fundamenta essa proibição no texto bíblico de Atos, capítulo 15, versículos 28 e 29, onde consta a orientação para que os fiéis “persistam em se abster de coisas sacrificadas a ídolos, de sangue, do que foi estrangulado e de imoralidade sexual”.
A flexibilização recente se soma a outro ajuste nas normas médicas do grupo anunciado meses antes. Em março, a liderança já havia alterado a posição oficial a respeito do uso do sangue do próprio paciente em cirurgias e tratamentos clínicos. Naquele período, o grupo sustentou que as escrituras sagradas não trazem menção direta ao reaproveitamento do sangue autólogo em intervenções cirúrgicas.
Para justificar essa autonomia no uso do próprio sangue, a cúpula da religião citou a passagem de Gálatas, capítulo 6, versículo 5, que diz que “cada um levará a sua própria carga”. No boletim de março, o Corpo Governante afirmou: “Assim como outras decisões sobre cuidados de saúde, cada cristão deve tomar uma decisão pessoal com respeito ao uso do seu próprio sangue em qualquer situação médica ou cirúrgica”.
A diferença de critérios entre o sangue total e os seus componentes é explicada pela liderança religiosa com base no princípio bíblico de não ir “além das coisas que estão escritas”. Conforme a interpretação oficial, a cúpula entende que não tem autorização para fixar proibições ou regras sobre temas não detalhados nos textos sagrados, o que possibilitou a liberação para as quatro frações celulares, enquanto considera explícito o veto bíblico ao sangue total.



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