Rio de Janeiro, RJ – O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, vítima de complicações causadas por uma pneumonia. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2015, Zuenir construiu uma das trajetórias mais sólidas da imprensa nacional ao longo de quase sete décadas de atuação profissional, marcada pela apuração rigorosa em campo e pelo compromisso intransigente com os direitos humanos e as liberdades democráticas.
O velório de Zuenir será realizado nesta quarta-feira (23), na sede da ABL, no centro do Rio de Janeiro. O sepultamento ocorrerá em seguida no mausoléu da instituição, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Ele deixa a mulher, Mary Ventura, os filhos Elisa e Mauro, além de netos.
Nascido em Além Paraíba, na Zona da Mata mineira, em 1º de junho de 1931, Zuenir mudou-se ainda criança com a família para Nova Friburgo, no estado fluminense. De infância modesta, cresceu em um lar sem jornais ou livros e começou a trabalhar cedo. Foi ajudante de pintor de parede ao lado do pai, contínuo de banco, faxineiro em bar e balconista de loja. A aproximação com as redações aconteceu quando cursava Letras Neolatinas e conseguiu uma vaga de arquivista noturno na Tribuna da Imprensa. Em 1956, migrou para a apuração como repórter.
Nas décadas seguintes, passou por redações históricas como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil, além de manter coluna regular no jornal O Globo. Zuenir também atuou na formação de novos profissionais no ensino superior, como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Escola Superior de Desenho Industrial, depois incorporada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Em 1985, comandou a reformulação editorial da revista Domingo, do Jornal do Brasil. Sua vida foi resgatada pelo cineasta Zelito Viana no documentário “Mestre Zu”, exibido na ABL em 2026.
Nas ruas, Zuenir cobriu marcos políticos e sociais decisivos do país e do exterior, como o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-Codi, o atentado a bomba no Riocentro durante a ditadura militar e a Revolução dos Cravos, em Portugal.
Sua bibliografia tornou-se leitura fundamental para a compreensão das fraturas do país. Em 1988, publicou “1968 – O Ano que Não Terminou”, trabalho que detalhou a resistência política, a repressão do AI-5 e as rupturas comportamentais daquele período. A publicação ultrapassou 400 mil exemplares comercializados, alcançou 48 edições e inspirou a minissérie televisiva Anos Rebeldes. O tema foi revisitado pelo autor anos mais tarde em “1968 – O que fizemos de nós”.
A cobertura sobre o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, realizada em 1989 para o Jornal do Brasil sob o título “O Acre de Chico Mendes”, rendeu a Zuenir os prêmios Esso e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. A investigação gerou livro homônimo e, em 2003, ganhou continuidade com “Chico Mendes – Crime e Castigo”.
Em 1993, Zuenir passou dez meses entrando e saindo da favela de Vigário Geral, na zona norte carioca, logo após a chacina cometida por policiais militares que vitimou 21 moradores. A imersão deu origem a “Cidade Partida” (1994), livro-reportagem que expôs a fratura social carioca, a violência armada e o abandono estatal nas periferias, trabalho agraciado com o Prêmio Jabuti de Reportagem e traduzido para o italiano.
O autor assinou ainda obras como “Inveja – Mal Secreto”, “Minhas Histórias dos Outros”, “Crônicas de um Fim de Século”, “O Rio de J. Carlos”, “Sagrada Família”, “Conversa sobre o Tempo” (com Luis Fernando Verissimo) e “70/80 – Cultura em Trânsito: da Repressão à Abertura” (com Heloisa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari).
Em 2008, a Organização das Nações Unidas (ONU) concedeu a ele uma honraria especial que o apontou como um dos cinco jornalistas que mais contribuíram para a causa dos direitos humanos na imprensa brasileira nas três décadas anteriores. Em 2010, recebeu o título de Jornalista do Ano da Associação dos Correspondentes Estrangeiros.
Em 30 de outubro de 2014, foi eleito para a Cadeira nº 32 da ABL, na vaga deixada por Ariano Suassuna. Tomou posse em março do ano seguinte, acolhido pela ensaísta Cleonice Berardinelli, formalizando o reconhecimento literário a um repórter que dedicou a vida a narrar as dores e as lutas do povo brasileiro.



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