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Sem atos oficiais, Kast despreza memória do golpe de 1973 no Chile

Pela primeira vez desde a redemocratização, presidente chileno não faz cerimônia oficial para lembrar mortos e desaparecidos da ditadura.

Manifestantes marcham em Santiago em memória dos mortos e desaparecidos da ditadura militar iniciada em 1973. AP Photo/Esteban Felix

Santiago, Chile – O presidente do Chile, José Antonio Kast, quebrou a tradição mantida desde o fim da ditadura militar em 1990 e se tornou o primeiro chefe do Executivo a ignorar oficialmente o golpe de 1973 no Chile. Em vez de realizar atos de memória no Palácio de La Moneda pela passagem dos 53 anos da data que derrubou e matou o presidente eleito Salvador Allende, Kast viajou para compromissos na região de Los Ríos. A decisão provocou protestos de movimentos sociais nas ruas e críticas duras da oposição no Congresso.

Enquanto o governo silencia sobre a data histórica, sindicatos, organizações de direitos humanos e grupos estudantis marcharam em Santiago e em Antofagasta. No último domingo (06/09), uma caminhada até o túmulo de Allende, no Cemitério Central da capital, terminou sob repressão da polícia chilena, os carabineros.

A líder do Partido Comunista no Legislativo, deputada Daniela Serrano, denunciou a omissão do presidente. “Acreditamos que isso envia uma mensagem terrível do Presidente da República. Essas comemorações representam uma oportunidade crucial para o Estado chileno reafirmar seu compromisso com a busca da verdade, da justiça e com garantias de não repetição”, afirmou a parlamentar.

Ruptura com o ciclo democrático

Desde a redemocratização chilena, o Executivo realizava atos em lembrança às vítimas. Patricio Aylwin sepultou Allende com honras de Estado nos anos 1990. Michelle Bachelet, que sofreu torturas no regime militar, transformou a data em cobrança permanente por justiça. Mesmo Sebastián Piñera, mandatário de centro-direita, liderou eventos pelo fortalecimento das instituições democráticas, enquanto Gabriel Boric reuniu ex-presidentes em 2023 no Palácio de La Moneda para firmar o documento “Compromisso pela Democracia”.

A postura de Kast coincide com seus laços familiares e políticos com o regime que vigorou entre 1973 e 1990. Em 1988, Kast fez campanha pela continuidade do ditador no poder. Seu irmão, Miguel Kast, presidiu o Banco Central e foi ministro no período militar. Ao assumir o governo no início de 2025, o mandatário nomeou nomes diretamente ligados à defesa judicial do ex-ditador: Fernando Rabat assumiu o Ministério da Justiça e Direitos Humanos após ter atuado na defesa de Pinochet no caso da Operação Colombo (que encobriu o sumiço de 119 pessoas), e Fernando Barros, ex-advogado e porta-voz do general em Londres, assumiu o Ministério da Defesa.

O jornalista e historiador chileno Andrés Almeida, editor-geral da revista Interferência, analisou o cenário: “Kast foi eleito apesar de todos conhecerem o seu passado e, de alguma forma, a infelicidade aconteceu justamente na sua eleição. Isso é mais uma consequência do fato de o Chile ter aceitado um líder dessa natureza”.

Disputa sobre a memória e avanço institucional

Apoiadores de extrema direita articulam no Congresso uma revisão do passado. O deputado Johannes Kaiser, do Partido Nacional Libertário, apresentou projeto de lei para criar o “Museu da Verdade”, uma contraposição direta ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago. O argumento da sigla é que o governo da Unidade Popular, liderado por Allende, trouxe instabilidade e que a versão corrente ignora a oposição da época.

Paralelamente, o governo tenta aprovar uma megarreforma de segurança que pretende conceder poderes de estado de exceção prolongado ao Executivo sem autorização do Congresso, justificando a medida pelo combate ao crime organizado. Para Andrés Almeida, a proposta desenha “basicamente uma ditadura legal”, com brecha para que o aparelho estatal persiga rivais políticos. Carlos Alberto Almeida, jornalista e fundador da Telesur, classificou o plano de segurança como uma “política de terror” voltada a sufocar protestos sociais, estudantes e jovens.

Terror de Estado e a Operação Condor

O bombardeio ao Palácio de La Moneda em 11 de setembro de 1973 marcou o começo de uma perseguição continental apoiada pelo governo dos Estados Unidos. Relatórios oficiais chilenos documentam mais de 3,2 mil mortos e desaparecidos e quase 40 mil pessoas presas e torturadas, além de cerca de 200 mil exilados. Entidades de familiares calculam que o total de vítimas diretas supera 100 mil pessoas.

Em 1975, as cúpulas militares se reuniram em Santiago para fundar formalmente a Operação Condor. A rede criminosa uniu as ditaduras de Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia para caçar e executar opositores além de suas fronteiras nacionais. O balanço regional da Condor contabiliza 50 mil assassinados, 30 mil desaparecidos e 400 mil presos políticos. No Brasil, o relatório da Comissão Nacional da Verdade registrou 434 mortos e desaparecidos sob a ditadura empresarial-militar (1964-1985); na Argentina, o terrorismo estatal vitimou cerca de 30 mil pessoas entre 1976 e 1983.

O modelo imposto por Pinochet usou o desaparecimento forçado, a tortura em locais públicos como o Estádio Nacional e a ocultação de cadáveres no mar ou em valas clandestinas. No plano econômico, as reformas neoliberais conduzidas pela ditadura mantiveram desemprego médio de 14% entre 1975 e 1981 e provocaram queda salarial de 75%. O crescimento médio do PIB per capita durante os 17 anos da ditadura foi de 1,74% ao ano, índice inferior aos 2% registrados nos 16 anos anteriores ao golpe e aos 4,3% dos 16 anos seguintes à queda do regime.

A data coincide no calendário global com os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, que mataram quase três mil pessoas. No entanto, enquanto as homenagens ao massacre do World Trade Center ganham mobilização internacional perpétua, as dezenas de milhares de vítimas latino-americanas executadas pela violência de Estado continuam enfrentando o esquecimento deliberado de governantes como Kast.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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