Aristóbulo del Valle, Argentina – O jornalista, escritor e ativista socioambiental Marcelo Jorge Baigorri, conhecido em toda a fronteira como Vasco Baigorri, morreu nesta terça-feira aos 75 anos. Morador de Aristóbulo del Valle, ele dedicou mais de duas décadas ao trabalho direto nas aldeias do povo Mbya Guarani, onde coordenava a área de Imprensa e Divulgação da Equipe Missioneira de Pastoral Aborígine (Emipa).
A trajetória de Vasco Baigorri foi construída no chão das comunidades, apoiando a luta pela demarcação de terras, acesso à água tratada e defesa das florestas. Como integrante ativo do Grupo Ecologista Kuña Pirú, Baigorri enfrentou diretamente os conflitos agrários da região, o que colocou sua vida em risco. Em 2019, sofreu um atentado a golpes de facão dentro do Parque Provincial Cuña Pirú enquanto acompanhava famílias indígenas na fiscalização de invasões ilegais de terras. Em 2023, atuou na denúncia pública que revelou a derrubada de cerca de 145 hectares de mata nativa na comunidade Takuapí Mirí.
Com mais de quatro décadas dedicadas à literatura, Baigorri construiu carreira sólida como poeta e cronista. Foi premiado com a Faixa de Honra da Sociedade Argentina de Escritores (Sade) e publicou obras como Sou eu apesar de mim, O país das laranjas amargas e As cabanas. Mestre em Cultura Guarani-Jesuítica e fotógrafo documental, ele também articulava a cena cultural local: foi membro fundador da Associação Aristóbulo del Valle Escreve (AVE) e dirigiu revistas literárias independentes na província.
No esporte, foi o principal pioneiro do tiro com arco em Misiones. Presidiu a Associação Missioneira da modalidade, formou atletas e atuou como árbitro regional em torneios na Argentina, no Paraguai e no Brasil, além de ter sido convocado pela World Archery Americas para ministrar treinamentos a delegados técnicos do continente.
A morte gerou manifestações em toda a bacia do Prata. Em nota oficial de despedida, a Emipa expressou a dor das aldeias e dos companheiros de militância: “Nos despedimos hoje com profunda tristeza, mas com a convicção de que seu legado viverá em cada um de nós. Porque sua vida marcou as nossas e porque sempre lutou de coração para que o mundo fosse mais justo; para que os territórios estejam nas mãos de seus donos ancestrais. Fez isso com força e coragem e caminhou lado a lado, nunca à frente. Estendeu a mão e não pediu nada em troca”.
No Brasil, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi Regional Sul) homenageou o comunicador por sua presença nos Encontros Continentais Guarani, destacando que ele compreendia a missão como presença e partilha.
A despedida final e o velório foram realizados na manhã desta quarta-feira (2), entre 8h30 e 10h, no salão da Cooperativa Cainguás, na Avenida das Américas, em Aristóbulo del Valle, onde lideranças originárias, escritores e esportistas prestaram as últimas homenagens antes do sepultamento.



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