Brasília, DF – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira (1º) que o governo federal prepara uma definição rápida sobre a presença das casas de apostas digitais no Brasil e admitiu adotar medidas duras contra o setor. Em reunião com movimentos sociais, conselhos de saúde, entidades do comércio e artistas no Palácio do Planalto, o presidente ouviu apelos diretos pela proibição total dos aplicativos e relatos sobre a destruição financeira e psicológica que o endividamento tem causado nos lares de trabalhadores em todo o país.
“O governo tem discutido como resolver o problema das bets. Eu sugeri ouvirmos o que a sociedade brasileira pensa sobre as bets antes de tomarmos uma solução definitiva. Depois que terminar essa reunião eu vou ainda esta semana, possivelmente, convocar uma reunião para tomar uma decisão”, declarou o presidente.
Durante o encontro, participantes levaram casos concretos de desespero financeiro decorrentes do vício em plataformas online. Entre eles, destacou-se o caso de um pai angustiado com a situação da filha, que se endividou com agiotas depois de perder reservas financeiras em apostas eletrônicas. Do lado do comércio, comerciantes relataram a retração nas vendas de itens básicos e a alta expressiva na inadimplência, provocada pelo desvio da renda das compras cotidianas para o jogo. Diante dos relatos, participantes cobraram a criação imediata de uma secretaria extraordinária para fechar o cerco às empresas clandestinas.
Lula definiu as casas de apostas como “um mal pra sociedade” e disse que, pessoalmente, defende o encerramento do setor, embora precise calcular os impactos sociais, políticos e econômicos antes de qualquer canetada.
“Acho que temos que tomar a decisão mais drástica. A gente tentou regular, tentou proibir. Mas proibir 60 mil bets clandestinas não é fácil. Envolve muita gente, artistas famosos fazendo propaganda. Na Copa do Mundo não estavam transmitindo jogo, estavam fazendo um apelo para o cara jogar”, disse Lula aos presentes.
A condução do encontro ficou sob responsabilidade da ministra da Casa Civil, Miriam Belchior. Também integraram a mesa os ministros Alexandre Padilha (Saúde), Wellington César Lima e Silva (Justiça e Segurança Pública), Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência), Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social) e Paulo Henrique Cordeiro (Esporte).
Sobrecarga no SUS e avanço entre mulheres
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, expôs a pressão que a dependência em jogos passou a exercer sobre a rede pública. O atendimento a pessoas dependentes de apostas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) subiu de uma cota inicial de 600 pacientes por mês para uma marca de 100 mil atendimentos mensais. Os dados revelam um dado expressivo sobre o perfil dos pacientes: as mulheres somam 55% das pessoas que buscam tratamento na rede pública, apesar de os homens liderarem o total de cadastros nas plataformas de apostas.
Padilha informou que os cidadãos atingidos pelo transtorno podem recorrer ao aplicativo SUS Digital para receber acolhimento e dar início a um plano terapêutico personalizado. No âmbito externo, o ministro explicou que o Brasil comanda, em parceria com Canadá e Espanha, uma articulação para aprovar uma resolução voltada ao problema na Organização Mundial da Saúde (OMS).
Drenagem de R$ 62,5 bilhões da renda familiar
Os dados econômicos apresentados na reunião mostram o tamanho da transferência de patrimônio do bolso popular para as operadoras de apostas. As famílias brasileiras acumularam uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões no último ano — cálculo que desconta os prêmios recebidos do valor total aplicado nos bilhetes eletrônicos.
Entre os meses de outubro de 2024 e março de 2026, a sangria mensal foi de R$ 4,7 bilhões direcionados às empresas do segmento. O valor equivale a 0,68% de toda a Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias no período. O levantamento confirma ainda que o volume total transferido via Pix para as contas dessas empresas chegou perto da cifra de R$ 351 bilhões.



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