Nova York (EUA) – Poucos intelectuais exerceram tanta influência sobre a compreensão das desigualdades globais quanto Immanuel Wallerstein. Sociólogo, historiador e cientista social norte-americano, ele se tornou conhecido mundialmente por formular a teoria do sistema-mundo, abordagem que transformou a maneira como pesquisadores passaram a interpretar o capitalismo, as relações internacionais e os processos de desenvolvimento econômico.
Nascido em Nova York, em 28 de setembro de 1930, Wallerstein cresceu em um período marcado por guerras, transformações geopolíticas e movimentos de libertação nacional. Ainda jovem, interessou-se pela política internacional e pelos processos de descolonização que avançavam na África e na Ásia após a Segunda Guerra Mundial.
Formado pela Universidade de Columbia, onde concluiu graduação, mestrado e doutorado, iniciou sua carreira acadêmica estudando os processos políticos da África pós-colonial. Durante os anos 1950 e 1960, dedicou grande parte de suas pesquisas às independências africanas e aos desafios enfrentados pelos novos Estados surgidos após o fim dos impérios coloniais europeus.
Foi a partir da década de 1970 que sua obra alcançou projeção internacional. Em um momento em que grande parte dos estudos econômicos buscava explicar por que alguns países eram ricos e outros permaneciam pobres, Wallerstein propôs uma mudança radical de perspectiva. Em vez de analisar cada nação isoladamente, argumentou que era necessário compreender o funcionamento de um único sistema econômico global.
Essa interpretação ficou conhecida como teoria do sistema-mundo. Segundo Wallerstein, o capitalismo não poderia ser entendido apenas a partir das economias nacionais. O sistema funcionaria como uma rede internacional organizada por relações desiguais entre regiões centrais, periféricas e semiperiféricas.
Nesse modelo, os países centrais concentram tecnologia, riqueza e poder político. Já as regiões periféricas tendem a fornecer matérias-primas, recursos naturais e força de trabalho barata. Entre esses dois polos estariam as semiperiferias, categoria utilizada para compreender países que ocupam posições intermediárias na economia mundial, como o Brasil em diferentes momentos históricos.
A obra mais conhecida de Wallerstein, O Sistema Mundial Moderno, tornou-se referência obrigatória em cursos de sociologia, ciência política, economia e relações internacionais. Nela, o autor buscou demonstrar que as desigualdades globais não seriam resultado de atrasos temporários no desenvolvimento, mas parte da própria lógica de funcionamento do capitalismo mundial.
Suas ideias dialogaram com autores como Karl Marx, Fernand Braudel e Max Weber, mas também encontraram forte ressonância na América Latina. Intelectuais ligados à teoria da dependência, como André Gunder Frank, Theotonio dos Santos e Samir Amin, contribuíram para ampliar e aprofundar debates que buscavam compreender as relações entre desenvolvimento, subdesenvolvimento e dependência econômica.
Além da produção acadêmica, Wallerstein tornou-se uma voz constante nos debates internacionais. Seus artigos sobre política global passaram a circular em jornais, revistas e publicações especializadas em diferentes países. Ao longo das últimas décadas, acompanhou criticamente os processos de globalização econômica, o avanço do neoliberalismo e as transformações do sistema internacional após o fim da Guerra Fria.
Para Wallerstein, o capitalismo entrou em uma crise estrutural a partir da década de 1970. Em seus textos mais recentes, argumentava que o sistema havia entrado em uma fase de transição histórica, cujo resultado poderia conduzir tanto a formas mais democráticas e igualitárias de organização social quanto a modelos ainda mais concentradores e excludentes.
Embora suas interpretações tenham recebido críticas de diferentes correntes acadêmicas, poucas teorias exerceram tamanho impacto sobre as ciências sociais contemporâneas. Sua influência alcançou universidades, centros de pesquisa, movimentos sociais e organizações políticas em diversas partes do mundo.
Immanuel Wallerstein morreu em 31 de agosto de 2019, aos 88 anos. Seu legado permanece vivo em debates que atravessam o século XXI e continuam buscando responder a uma pergunta central de sua obra: por que a riqueza e o poder permanecem distribuídos de forma tão desigual no mundo?



















