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Home Sociedade

Gaza: ataques a profissionais humanitários tornam a assistência quase impossível

Por Amilton Farias
03/03/2024 - 07:00
em Sociedade
Hospital de Campanha Indonésio de Rafah. Gaza, 27 de dezembro de 2023. © MSF

Hospital de Campanha Indonésio de Rafah. Gaza, 27 de dezembro de 2023. © MSF

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Há um mês, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) emitiu decisões preliminares ordenando que Israel prevenisse e punisse atos de genocídio e garantisse que serviços básicos e ajuda chegassem às pessoas na Faixa de Gaza. No entanto, a situação humanitária dos habitantes de Gaza encurralados na região continua catastrófica. De acordo com as autoridades de saúde locais, o número de pessoas mortas em Gaza subiu para 30 mil, enquanto não há sinais de que as forças israelenses tentem limitar o número de mortes de civis ou aliviar o sofrimento das pessoas.  

O estrito bloqueio de Israel a Gaza dificulta a entrada de suprimentos vitais na região. Ao mesmo tempo, o fornecimento de assistência dentro do enclave é quase impossível devido ao total descaso de Israel com a proteção e a segurança das atividades médicas e humanitárias, bem como das equipes, impedindo que as pessoas recebam ajuda que salva vidas. Essa realidade está tornando a resposta humanitária em Gaza uma mera ilusão.

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“A grande ausência de espaço humanitário e a falta de suprimentos que estamos testemunhando em Gaza são realmente terríveis”, diz Lisa Macheiner, coordenadora do projeto de MSF em Gaza. “Se as pessoas não são mortas por bombas, elas sofrem com a privação de comida e água e morrem por falta de cuidados médicos.”

Equipe médica e humanitária forçada a arriscar suas vidas

Nenhum lugar em Gaza é seguro, nem para civis nem para aqueles que tentam fornecer-lhes ajuda essencial. O descaso total e flagrante de Israel pela proteção das instalações médicas ou dos profissionais humanitários de Gaza tornou o fornecimento de cuidados e assistência vitais uma tarefa quase impossível.

Nos últimos cinco meses, as instalações de saúde foram submetidas a ordens de evacuação e repetidos ataques, além de terem sido sitiadas e invadidas. Equipes médicas e pacientes foram presos, submetidos a violência e mortos enquanto cuidavam dos pacientes. Cinco profissionais de nossa própria equipe foram mortos. Vários familiares de integrantes da equipe de MSF também foram mortos.  

Leia mais: 5 atrativos turísticos imperdíveis ao visitar a fronteira

Em um dos mais recentes casos de ataques implacáveis a instalações de saúde, o Hospital Nasser, o maior do sul de Gaza, foi sitiado por semanas. Depois que um projétil atingiu o departamento ortopédico, matando e ferindo várias pessoas, a equipe de MSF foi forçada a fugir e deixar os pacientes para trás. Um integrante da equipe de MSF foi detido em um posto de controle pelas forças israelenses enquanto tentava deixar o complexo. Reiteramos nosso apelo às autoridades israelenses para que compartilhem informações sobre o desaparecimento do profissional e para que protejam seu bem-estar e sua dignidade.

A equipe médica que permanece dentro do hospital descreve uma situação terrível, em que os pacientes estão presos com alimentação limitada e sem eletricidade ou água corrente.

“Todas as noites, me despeço dos meus colegas palestinos. Todas as manhãs, tenho medo de não vê-los na reunião da manhã seguinte”, conta Macheiner. “Todos os dias parece que estamos cada vez mais sem opções – tratar os feridos, obter os suprimentos médicos ou fornecer água, da qual as pessoas urgentemente precisam.”

No fim da noite de 20 de fevereiro, um tanque israelense bombardeou um abrigo de MSF em Al-Mawasi, matando duas familiares de um profissional da equipe de MSF e ferindo outras sete pessoas. As forças israelenses foram claramente informadas da localização precisa do abrigo, o que reafirma que nenhum lugar em Gaza é seguro e que os mecanismos de desconflito não são confiáveis.

Restrições e falta de proteção dos comboios de ajuda

No norte ou no sul, os profissionais humanitários não têm garantias de segurança para realizar seu trabalho. Seus comboios estão sendo bloqueados e sofrendo grandes atrasos nos postos de controle, tornando impossível alcançar pessoas com necessidades urgentes.

O norte de Gaza está praticamente sem assistência há meses, deixando as pessoas encurraladas e sem escolha a não ser tentar sobreviver com quantidades mínimas de alimentos, água e suprimentos médicos. Bairros inteiros foram bombardeados e destruídos. Embora MSF tenha visibilidade limitada da situação humanitária e de saúde geral no Norte, alguns de nossos profissionais permanecem encurralados na região.

“A situação no norte de Gaza é catastrófica e está piorando”, relata profissional de enfermagem de MSF no Norte. “Não há hospitais nem para tratamento básico, e as farmácias estão sem medicamentos. Meus filhos estão doentes há semanas por causa da falta de água limpa e comida adequada, e eles estão piorando.”

De acordo com as Nações Unidas, entre 1º de janeiro e 12 de fevereiro, metade das atividades planejadas por parceiros humanitários para entrega de ajuda e realização de avaliações em áreas ao norte de Wadi Gaza, uma região no centro do enclave, teve o acesso negado pelas autoridades israelenses. O Programa Alimentar Mundial (PAM) é a mais recente organização humanitária forçada a suspender a assistência vital ao norte de Gaza, declarando que as condições não permitem a distribuição segura de alimentos.

“As pessoas não podem suportar mais sofrimento”

Como parte do cerco completo e desumano de Israel a Gaza, a interrupção do fornecimento de ajuda levou cerca de 2 milhões de pessoas em Gaza ao desespero. O número de caminhões que entram no enclave caiu de uma média de 300 a 500 caminhões por dia antes da guerra para uma média de apenas 100 caminhões por dia entre 21 de outubro e 23 de fevereiro. Em 17 de fevereiro, apenas quatro caminhões foram autorizados a entrar em Gaza.

Procedimentos administrativos prolongados e imprevisíveis para entregas de ajuda a Gaza estão impedindo o acesso a equipamentos e suprimentos essenciais para instalações de saúde. Pode levar até um mês para que os suprimentos entrem em Gaza, pois cada caixa em cada caminhão é submetida a triagem. Se as autoridades israelenses rejeitarem um único item durante o processo de triagem, toda a carga deve ser devolvida ao Egito. Sem uma lista oficial de itens restritos, MSF tem sido constantemente impedida de importar geradores de energia, purificadores de água, painéis solares e vários equipamentos médicos.

“A cada segundo que suprimentos sofrem atrasos, e cada vez que um item é bloqueado, mais sofrimento inaceitável e devastador é causado”, constata Macheiner. “Esses suprimentos significam a diferença entre a vida e a morte para muitas pessoas.”

Em Rafah, no sul de Gaza, cerca de 1,5 milhão de pessoas deslocadas à força vivem em condições terríveis. Elas não têm o básico necessário para sobreviver. As mulheres são forçadas a usar retalhos de roupas como absorventes, e as pessoas vivem em barracas lamacentas sem colchões ou roupas capazes de manter o corpo aquecido.

“Pessoas com condições crônicas, como câncer, diabetes ou epilepsia, mal têm acesso a medicamentos”, diz o Dr. Hossam Altalma, médico de MSF que trabalha na clínica de Al-Shaboura. “As pessoas estão desesperadas e dispostas a pagar qualquer preço para obter medicação.”

As equipes de MSF continuam a fornecer cuidados médicos e humanitários em Gaza, sempre que possível, incluindo cirurgia, cuidados pós-operatórios, cuidados de maternidade, apoio de saúde mental e distribuição de água. Mas tudo isso é uma gota no oceano em comparação com as necessidades das pessoas.

MSF pede mais uma vez um cessar-fogo imediato e sustentado, garantias significativas de segurança para os profissionais humanitários e o fim do bloqueio desumano, para garantir que as pessoas recebam assistência vital.

“As pessoas em Gaza não podem suportar mais sofrimento”, continua Macheiner. “Elas perderam toda a sensação de segurança, seja pela constante ameaça de serem mortas por bombas à noite ou pela incerteza de conseguir sua próxima refeição ou de beber água.”  

Assista aqui o vídeo da diretora-geral de Médicos Sem Fronteiras, Meinie Nicolai, que é a atual responsável pela coordenação médica em Gaza.

Tags: GENOCÍDIO EM GAZA
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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