Catacaos (Peru) – De joelhos diante de uma comunidade indígena e camponesa do norte do Peru, representantes do Vaticano pediram perdão por décadas de silêncio diante de denúncias envolvendo terras, perseguições e abusos atribuídos a empresas ligadas ao extinto Sodalício de Vida Cristã, organização ultraconservadora dissolvida por determinação do papa Francisco em 2025.
O pedido foi feito durante uma celebração realizada na comunidade San Juan Bautista de Catacaos, na região de Piura. A cerimônia foi conduzida por monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano responsável por acompanhar o processo de dissolução do grupo religioso.
“Estamos aqui para pedir perdão em nome da Igreja. Chegamos tarde, deveríamos ter chegado há 20 anos”, afirmou Bertomeu durante a homilia.
A comunidade denuncia há décadas a perda de quase 10 mil hectares de terras que considera ancestrais. Segundo os moradores, a transferência dos territórios teria ocorrido em 1998 por meio de uma assembleia supostamente fraudulenta. Lideranças locais afirmam que diversos participantes listados nos documentos estavam mortos à época ou desconheciam a existência da reunião.
Os moradores afirmam que os direitos sobre essas terras não derivam apenas de registros recentes, mas da própria história da comunidade. Segundo as lideranças locais, o território pertence coletivamente aos descendentes do povo Tallán, considerado um dos mais antigos do norte peruano. Para os camponeses, a disputa ultrapassa a dimensão patrimonial e envolve a preservação da memória, da identidade e dos vínculos históricos construídos ao longo de gerações.
As terras passaram por sucessivas transferências empresariais até chegarem à Asociación Civil San Juan Bautista, entidade apontada por jornalistas e investigadores como ligada ao Sodalício de Vida Cristã.
Durante anos, moradores denunciaram perseguições judiciais, criminalização de lideranças e conflitos envolvendo a posse das áreas. Um dos episódios mais graves ocorreu em 2011, quando camponeses relataram confrontos relacionados à instalação de cercas nos territórios disputados. O caso resultou na morte de Guadalupe Zapata Sosa, reconhecido posteriormente pelo Vaticano como uma liderança que se opôs ao suposto esquema de tomada de terras.
A fala de Bertomeu foi recebida com emoção pelos moradores. Para Paula Sandoval, integrante da comunidade, o gesto representa um reconhecimento histórico das violações denunciadas pelas famílias. “Fizeram o que quiseram conosco porque somos pobres, somos do campo e não conhecemos as leis”, declarou.
O pedido de perdão ocorre em um contexto mais amplo de questionamentos sobre a atuação do Sodalício no Peru. Além das denúncias de abusos sexuais e de autoridade, o Vaticano apontou suspeitas relacionadas à administração de recursos e ao uso de estruturas empresariais vinculadas ao grupo.
A Asociación Civil San Juan Bautista nega qualquer irregularidade. Em nota, a entidade afirmou que adquiriu as terras dentro da legislação peruana e rejeitou as acusações de participação em esquemas de apropriação territorial.
Mesmo após a dissolução do Sodalício, a disputa permanece sem solução definitiva. Em maio deste ano, a Justiça peruana rejeitou uma ação constitucional que buscava a devolução dos territórios reivindicados pela comunidade. A decisão ainda poderá ser contestada em instâncias superiores.
Para organizações de direitos humanos, o caso de Catacaos expõe a vulnerabilidade de comunidades indígenas e camponesas diante da concentração de poder econômico, das dificuldades de acesso à Justiça e dos desafios enfrentados por povos originários para garantir o reconhecimento e a proteção efetiva de seus territórios tradicionais.
Recentemente, a comunidade San Juan Bautista foi incorporada à Base de Dados de Povos Indígenas do Ministério da Cultura do Peru, reconhecimento considerado importante pelas lideranças locais. Enquanto aguardam novas decisões judiciais, os moradores afirmam que continuarão buscando reparação e o reconhecimento de direitos que consideram anteriores à própria formação do Estado peruano moderno.
O Vaticano informou que estuda mecanismos para utilizar bens remanescentes do Sodalício na compensação de vítimas reconhecidas pela Igreja.

















