Curitiba, PR – Estudo do Programa de Pós-Graduação em História da UFPR analisa como o escritor Lima Barreto transformou o subúrbio carioca e os trens da Central do Brasil em símbolos das desigualdades sociais produzidas pelas reformas urbanas do início do século XX
O processo de modernização do Rio de Janeiro no início do século XX, marcado pelas reformas urbanas conhecidas como “bota-abaixo”, redefiniu a organização social da então capital brasileira e influenciou diretamente a obra do escritor Lima Barreto. A análise faz parte de uma pesquisa desenvolvida por Milena Dantas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob orientação do professor Andre Luiz Cavazzani.
A pesquisa investiga como o subúrbio carioca aparece nas crônicas e romances do escritor, nascido em 13 de maio de 1881, especialmente como representação das desigualdades produzidas pelas políticas urbanas higienistas implementadas durante a gestão do prefeito Pereira Passos.
Naquele período, mais de 500 prédios e casarões foram demolidos para abrir espaço a uma arquitetura inspirada em Paris. Além disso, a reforma urbana provocou mudanças profundas na dinâmica social da cidade. Como consequência, regiões afastadas do centro passaram a concentrar a população pobre e negra, especialmente os descendentes de escravizados recém-libertos.
Segundo a pesquisa, o conceito de subúrbio deixou de representar apenas uma delimitação geográfica e passou a carregar um significado social associado à pobreza, ao abandono estatal e à precariedade. O território além dos trilhos do trem tornou-se o espaço dos excluídos da modernização.
Nesse contexto, Lima Barreto transformou o cotidiano suburbano em matéria-prima literária. O escritor viveu grande parte da vida em bairros suburbanos do Rio de Janeiro e retratou em suas obras a sensação de marginalização social vivida pelos moradores dessas regiões.
“A descrição do subúrbio que surgiu na pesquisa é como um espaço em processo de transformação. De um lado, as antigas chácaras e, do outro, essa longa faixa que segue a linha férrea central. Dois espaços, dois tempos, um invadindo o outro, um espaço entremeio. Fica clara a crítica do autor ao processo de modernização considerado autoritário e excludente”, afirma Milena Dantas.
A pesquisadora destaca que o estudo buscou compreender a literatura de Lima Barreto como uma representação histórica atravessada por experiências sociais, subjetividades e relações de poder. Para isso, o trabalho utilizou uma abordagem multidisciplinar, reunindo história, teoria literária e geografia.
“A dissertação buscou tratar a obra de Lima Barreto como uma representação histórica atravessada por sensibilidades, experiências. Especialmente no sentido de buscar compreender os processos de construção histórica de sensibilidades, experiências subjetivas e formas de sociabilidade nos subúrbios cariocas”, acrescenta Andre Luiz Cavazzani.
Trem da Central do Brasil virou símbolo da vida suburbana
O estudo também aponta que os trens da Central do Brasil tiveram papel central na construção do imaginário suburbano presente nas obras de Lima Barreto. Enquanto os bondes elétricos valorizavam áreas nobres da Zona Sul, os trens permitiam a expansão das periferias ocupadas pelas classes populares.
Construída em 1858, a Estrada de Ferro Dom Pedro II, posteriormente chamada de Central do Brasil, conectava bairros das zonas Norte e Oeste ao centro político e comercial da cidade. Ao longo do trajeto estavam bairros como Riachuelo, Méier, Engenho Novo, Cascadura, Piedade e Todos os Santos, locais que aparecem frequentemente nas narrativas do escritor.
Para chegar ao trabalho na Secretaria da Guerra, onde atuava das 10h às 15h, Lima Barreto utilizava diariamente os trens suburbanos. A experiência do deslocamento aparece repetidamente em suas crônicas, principalmente nas descrições da superlotação, da pobreza e das diferenças sociais observadas dentro dos vagões.

Ao mesmo tempo, segundo a pesquisa, o ambiente ferroviário funcionava como um verdadeiro laboratório literário para o autor.
“Era um espaço de laboratório, de escolha de temas, de personagens, de observação da realidade. Por ser um espaço que aglutinava vários subúrbios no caminho até o centro, era como um microcosmo da vida suburbana, segundo o autor”, explica Milena Dantas.
A pesquisadora também destaca que as estações de trem exerciam importante função social na época.
“Em uma análise de jornais suburbanos da época, em especial a Gazeta Suburbana, as estações de trem apresentavam um papel central na vida dos moradores suburbanos e eram até espaço de lazer, lugar de encontro, espaço para ver e ser visto”, completa.
Educação aparece como possibilidade de transformação social
Outro aspecto analisado pela pesquisa é a importância atribuída por Lima Barreto à educação como instrumento de transformação social, especialmente para mulheres negras e pobres.
A análise cruza elementos do romance Clara dos Anjos com passagens autobiográficas presentes em Diário Íntimo. Segundo a pesquisadora, o escritor demonstrava preocupação com a vulnerabilidade social enfrentada por mulheres negras em uma sociedade recém-saída da escravidão.
“A questão da gravidez não planejada, de mulheres negras e pobres que tinham seus corpos usados, era algo relativamente comum na realidade que Lima observava”, analisa Milena Dantas.
De acordo com o estudo, Lima Barreto entendia a educação como forma de romper ciclos de opressão e ampliar a consciência social dos moradores suburbanos. O escritor defendia que a instrução permitia compreender melhor as relações de poder e enfrentar desigualdades estruturais.
A pesquisa também aponta que essa visão contrariava parte do pensamento predominante entre intelectuais da época, marcado pelo determinismo social e racial.
“Desse modo, a falta de consciência não é uma condição da mulher, mas fruto do espaço e das relações de poder que ali se desenvolvem”, avalia a pesquisadora.
Além disso, o estudo conclui que os personagens de Lima Barreto representam experiências coletivas da população suburbana e não apenas trajetórias individuais.
“As personagens de Lima Barreto apresentam uma característica importante, elas são representantes de um grupo, são pensadas com base em vivências universais, experiências compartilhadas por um grupo social”, finaliza.


















