Trabalhar menos pode aumentar a produtividade, diz Nobel

Trabalhar menos pode aumentar a produtividade, diz Nobel

Economista afirma que redução da jornada acompanha a história e não deve ser vista como ameaça à economia

Menos horas, mais produtividade. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
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São Paulo (SP) – A ideia de que trabalhar mais horas significa produzir mais foi colocada em xeque por um dos economistas mais respeitados do mundo. Vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2010, Christopher Pissarides defendeu que jornadas menores tendem a aumentar a produtividade dos trabalhadores e melhorar o desempenho das empresas.

A declaração foi feita durante entrevista ao programa Capital Insights, parceria entre a Broadcast e a CNN Brasil Money, em meio a debates que ganham força em diversos países sobre redução da jornada de trabalho e revisão de modelos tradicionais de contratação.

Professor da London School of Economics, Pissarides afirmou que a diminuição da carga horária faz parte de um processo histórico observado há décadas e que deve continuar avançando conforme as transformações econômicas e tecnológicas alteram a forma de trabalhar.

Segundo ele, mudanças desse tipo precisam ser construídas por meio do diálogo entre trabalhadores e empregadores, evitando soluções impostas sem negociação.

“É preciso ouvir a todos. A redução da carga de trabalho vem acontecendo de tempos em tempos ao longo da história. E vai continuar acontecendo. Mas não é algo que deve ser imposto”, afirmou.

O economista também rebateu argumentos frequentemente utilizados contra propostas de redução da jornada. Para ele, não existe uma relação automática entre menos horas trabalhadas e aumento da inflação.

Na avaliação de Pissarides, os impactos dependem das características de cada economia, dos setores envolvidos e das condições específicas de cada país.

Outro ponto levantado pelo Nobel foi a crítica aos modelos de remuneração baseados exclusivamente em horas trabalhadas. Segundo ele, esse sistema acaba transferindo ao trabalhador parte dos riscos que deveriam ser assumidos pelas empresas.

“O risco do negócio é da empresa”, destacou.

Pissarides também defendeu a importância da negociação coletiva nas relações de trabalho. Para o economista, a maioria dos trabalhadores se encontra em posição desigual diante das empresas, o que torna os sindicatos fundamentais para equilibrar a capacidade de negociação.

Na visão dele, acordos individuais fazem mais sentido em cargos de alta gestão, onde profissionais possuem maior poder de barganha e autonomia contratual.

As declarações ganham relevância em um momento em que diferentes países discutem alternativas para enfrentar o aumento dos casos de esgotamento profissional, os impactos da automação e as mudanças provocadas pelas novas tecnologias.

Para especialistas em mercado de trabalho, o debate já não gira apenas em torno da quantidade de horas trabalhadas, mas também da qualidade do trabalho realizado e dos efeitos da jornada sobre a saúde física, mental e social dos trabalhadores.

Mais do que uma discussão econômica, a redução da jornada passou a integrar um debate sobre produtividade, bem-estar e distribuição dos ganhos gerados pelo avanço tecnológico.


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