Rio Branco (AC) — Para milhões de trabalhadores brasileiros, o debate sobre o fim da escala 6×1 não se resume a uma mudança na legislação trabalhista. A discussão envolve tempo para conviver com a família, acompanhar o crescimento dos filhos, cuidar da saúde, estudar e viver para além da rotina do trabalho. No Acre, experiências com a jornada 5×2 começam a apresentar resultados que fortalecem esse debate.
Enquanto o Congresso Nacional analisa a proposta que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e amplia os dias de descanso dos trabalhadores, empresas de Rio Branco iniciaram testes com o novo modelo. Os relatos indicam aumento da motivação, melhora no atendimento ao público e maior satisfação entre os funcionários.
Em uma rede de supermercados da capital acreana, 85 trabalhadores passaram a atuar no sistema de dois dias de descanso por semana. Segundo a empresa, a mudança trouxe reflexos imediatos no ambiente de trabalho.
Para o gerente de Recursos Humanos Jônatã Zanconatto, o ganho mais perceptível está na disposição dos trabalhadores.
“Os funcionários estão mais descansados. Quando existe desgaste físico e mental, a produtividade diminui. Ter mais tempo para a família e para o lazer tem refletido diretamente na qualidade do trabalho”, afirmou.
Outra rede supermercadista ampliou a experiência para quatro unidades e cerca de 200 funcionários. O projeto começou pelos caixas, setor que mantém contato direto com os consumidores.
Segundo o gerente de operações Rogério Marinho, os trabalhadores relatam maior equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.
“O principal retorno que recebemos é que as pessoas estão conseguindo dedicar mais tempo à família e retornam ao trabalho mais dispostas”, destacou.
Mas os efeitos da discussão ultrapassam os resultados observados pelas empresas.
Para quem vive a rotina da escala 6×1, o tema está ligado ao direito ao descanso e à convivência familiar. O técnico em gestão ambiental Jorge Araújo descreve uma realidade comum a milhares de trabalhadores brasileiros.
“Trabalhar de segunda a sábado é muito cansativo. Muitas vezes você não acompanha a vida dos filhos, não participa das atividades da escola e praticamente vive para trabalhar”, relatou.
A auxiliar de Recursos Humanos Simone Souza também vê a proposta como uma forma de devolver tempo às pessoas.
“As pessoas precisam ter tempo para cuidar da família, resolver questões pessoais e viver além do trabalho. Não é só uma questão econômica, é uma questão de qualidade de vida”, afirmou.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego apontam que 37.544 trabalhadores acreanos seriam diretamente beneficiados pela mudança caso a nova jornada seja implementada em todo o país. Atualmente, esse contingente ainda está submetido a regimes equivalentes à escala 6×1.
O governo federal também projeta impactos sobre a geração de empregos. Estudos do ministério indicam que a redução da jornada poderá estimular novas contratações, repetindo um movimento semelhante ao observado após a redução da carga horária semanal estabelecida pela Constituição de 1988.
Para o superintendente regional do Trabalho no Acre, Leonardo Lani, a experiência histórica demonstra que a distribuição mais equilibrada do tempo de trabalho pode beneficiar tanto trabalhadores quanto a economia.
Mais do que números, porém, a discussão recoloca uma pergunta antiga no centro do debate público: quanto da vida deve ser consumido pelo trabalho?
A resposta tem mobilizado trabalhadores em todo o país. E, para muitos deles, o fim da escala 6×1 representa não apenas uma mudança na jornada, mas a possibilidade de recuperar tempo, saúde e convivência em um cotidiano cada vez mais marcado pela exaustão.


















