Brasília, DF – O deputado Eduardo Bolsonaro orientou a gestão de recursos enviados pelo empresário Daniel Vorcaro nos Estados Unidos para bancar a produção do filme Dark Horse, segundo investigação da Polícia Federal (PF). Os relatórios da corporação, que tiveram o sigilo retirado nesta quinta-feira (10) pelo Supremo Tribunal Federal (STF), apontam que o dinheiro transitou por um fundo imobiliário fantasma sediado no Texas, sem qualquer imóvel registrado, e ficou parado por quase quatro anos até receber repasses milionários.
A decisão de levantar o sigilo dos autos partiu do ministro André Mendonça, do STF, em cumprimento a uma determinação do presidente da corte, Edson Fachin. As apurações mostram que o fundo Havengate, administrado pelo advogado Paulo Calixto — ligado a Eduardo Bolsonaro —, recebeu remessas que somaram US$ 24 milhões (cerca de R$ 122 milhões) a partir de 2025. O longa-metragem aborda a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
De acordo com a PF, os valores saíram das contas de assessores de Vorcaro a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), irmão de Eduardo. O dinheiro passou pela empresa Entre Investimentos, de propriedade de Antônio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, empresário que fechou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). O fluxo de caixa só foi interrompido com a prisão de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, acusado de comandar uma fraude financeira bilionária por meio da instituição.
Estrutura inativa e manobra no exterior
Criado em 2020 sob a promessa de ser um empreendimento imobiliário orçado em US$ 21 milhões, o Havengate nunca teve propriedades em seu nome. A empresa que geria a carteira, a Calixsan Capital Management LLC — controlada por Paulo Calixto e Altieris Santana —, cancelou seus registros regulatórios no Texas em maio de 2021 e na Flórida em setembro daquele mesmo ano, época em que as construções deveriam estar em andamento.
Os investigadores detalharam que o fundo continuou juridicamente formalizado, mas permaneceu “operacionalmente inerte por quase quatro anos, sem qualquer atividade pública registrada”. Essa paralisia acabou em 13 de fevereiro de 2025, data em que a Entre Investimentos transferiu a primeira parcela de US$ 2 milhões para bancar a produção audiovisual.
Para os peritos federais, a reativação repentina de um fundo “dormente por anos, sem lastro em qualquer operação imobiliária ativa, como veículo de remessas internacionais vinculadas a uma produção cinematográfica, constitui circunstância objetiva que reforça a necessidade de apuração da compatibilidade entre o perfil do veículo financeiro utilizado e a destinação declarada dos recursos”.
Mensagens revelam intermediação política
As apurações reuniram mensagens trocadas entre os envolvidos que mostram a atuação direta de intermediários e da família Bolsonaro. O publicitário Thiago Miranda atuou na ponte entre Vorcaro e os congressistas. Em março de 2025, Miranda avisou Vorcaro que “Flavio B e Eduardo” queriam agendar uma reunião com ele para tratar do filme.
Logo após esse contato, Miranda encaminhou ao empresário o print de uma conversa atribuída a Eduardo Bolsonaro. A imagem continha instruções expressas sobre como administrar o envio e o destino das cifras em solo norte-americano. O material agora integra as provas do inquérito que apura crimes financeiros e lavagem de capitais na produção cinematográfica.



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