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Crise em Brasília asfixia debate eleitoral a um mês da votação

Movimentos sociais e sindicatos alertam que disputas em Brasília deixaram em segundo plano temas urgentes como trabalho, terra e ciência.

Mobilização social reivindica debate sobre trabalho e meio ambiente a menos de um mês do primeiro turno das eleições gerais. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Brasília, DF – A escalada da crise político-institucional envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e outros órgãos públicos sequestrou a pauta política brasileira e empurrou para segundo plano os debates programáticos a menos de um mês do primeiro turno das eleições de 2026. A denúncia parte de entidades sindicais, científicas e movimentos sociais, que apontam o esvaziamento das discussões sobre temas urgentes da população — como emprego, salários, desastres climáticos, soberania e demarcação de terras indígenas.

As turbulências ganharam força com os desdobramentos da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025 para investigar suspeitas de ligações entre autoridades e Daniel Vorcaro, dono do antigo Banco Master. Embora as entidades classifiquem o caso como grave e defendam a apuração rigorosa, elas alertam que a cobertura midiática e as disputas em Brasília sufocaram a avaliação das propostas de quem disputa cargos nos governos estaduais, na Presidência e no Congresso Nacional em 4 de outubro.

“O debate eleitoral está prejudicado porque, no primeiro plano, as atenções estão todas voltadas para os reflexos da atual crise institucional do Poder Judiciário”, afirmou a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro.

Ciência e projeto nacional ignorados

Para a presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, a corrida eleitoral acabou sequestrada por pautas alheias às reais necessidades do país, deixando sem espaço o debate sobre desenvolvimento econômico e investimentos estruturais.

“Há uma lacuna imensa em relação a outros temas fundamentais que deveriam estar no centro do debate político-eleitoral, como a ciência, que depende de regras estáveis, orçamento previsível e atenção. É como se o país fosse obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou um projeto mais amplo de desenvolvimento nacional, quando estes dois temas fazem parte da mesma agenda”, explicou Francilene.

A gravidade do momento também foi destacada pelo coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara. Para ele, o pleito de 2026 é o mais decisivo desde a promulgação da Constituição de 1988, diante do cenário de conflitos globais e reorganização do trabalho.

“Apesar disso, os grandes temas que deveríamos estar discutindo – desenvolvimento econômico, soberania nacional, uma agenda que articule defesa, educação, ciência e tecnologia – estão escanteados. Não só do debate público e do noticiário, mas também dos programas de governo. Os candidatos parecem não compreender a situação que o Brasil está enfrentando”, declarou Cara.

Pauta dos trabalhadores e minerais estratégicos travados

No Congresso Nacional, a instabilidade entre os Poderes paralisou articulações que vinham avançando. A presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, destacou que as prioridades da classe trabalhadora incluem o fim da escala 6×1, a geração de empregos com renda digna, a segurança pública e a aprovação do Projeto de Lei 1.893/2026, que trata da negociação coletiva dos servidores públicos.

“As centrais sindicais já vinham atuando no Congresso para convencer os parlamentares a aprovarem o fim da escala 6×1 e a regulamentação das relações de trabalho e da representação sindical no setor público. Até o fim de agosto, isso estava avançando. Aí o Brasil virou uma confusão. No momento, todos os Poderes parecem estar surpresos, e a sociedade assustada com o desenrolar desta crise institucional – que é gravíssima e jogou para segundo plano todos os outros temas”, disse Rita, relatando que os sindicatos tentam encontrar brechas para recolocar essas cobranças na agenda pré-eleitoral.

Outro ponto travado é o destino dos minerais críticos e terras raras, matéria-prima estratégica para a transição energética e tecnológica global. O Congresso aprovou recentemente o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, encaminhado para sanção da Presidência. Contudo, enquanto o setor econômico pressiona pela exploração rápida, lideranças indígenas exigem salvaguardas socioambientais e a aplicação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante a consulta prévia, livre e informada às comunidades antes de qualquer intervenção em terras tradicionais.

Negacionismo do clima e reação do movimento indígena

O silêncio das chapas atinge diretamente a crise climática, mesmo após desastres recentes como as enchentes históricas no Rio Grande do Sul e a seca severa que castigou a Amazônia.

“Vimos o que aconteceu no Rio Grande do Sul e em outras partes do mundo. A seca na Amazônia e as enchentes no Sul do país. Vimos o quanto isso afeta a vida das pessoas e os custos para o orçamento público, devido ao atendimento às vítimas, à reconstrução de cidades arrasadas e à quebra de safras, por exemplo”, alertou o secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini. “Surpreendentemente, poucos candidatos citam a crise climática entre suas principais preocupações. Pior. Há candidatos que negam o problema. Estes, certamente, se eleitos, não tomarão nenhuma medida para enfrentar ou minimizar as consequências de um problema que não acreditam que existe.”

Diante da omissão dos partidos tradicionais sobre pautas territoriais e socioambientais, o movimento indígena decidiu apostar em candidaturas próprias. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) apoia e lançou 56 nomes para os parlamentos e governos: 33 para deputado estadual, 19 para federal, dois ao Senado, um a governador e uma vaga para suplência do Senado.

“Esse é um assunto que também nos interessa porque diz respeito a uma das nossas maiores lutas, pela demarcação e proteção dos nossos territórios, sem os quais não conseguimos garantir outros direitos, como à proteção, à educação e à saúde indígena”, afirmou o coordenador executivo da Apib, Alcebias Constantino.

Segundo Constantino, a instabilidade institucional pouco altera a tática de quem já vive em enfrentamento constante. “Lógico que tudo o que estamos vendo gera uma instabilidade que nos afeta e que pode nos prejudicar, mas, no sentido do trabalho de mobilização, até que não nos afeta tanto. Avaliamos nossas estratégias e, se necessário, as modificamos, mas seguimos com nossas ações. Até porque, como nossos territórios e nossos direitos estão sob ataque constante, aprendemos desde cedo que, passado tudo isso, o movimento vai enfrentar novos ataques e que a luta é constante”, concluiu.

Serviço:

  • Primeiro turno das eleições gerais: domingo, 4 de outubro de 2026.
  • Cargos em disputa: Presidente da República, governadores de estado, senadores, deputados federais e deputados estaduais/distritais.
  • Consulta da situação eleitoral e local de votação: acesse o site do Tribunal Superior Eleitoral (tse.jus.br) ou o aplicativo e-Título.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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