Caso Colcabamba reacende debate sobre violência estatal e impunidade

Caso Colcabamba reacende debate sobre violência estatal e impunidade

Famílias contestam versão inicial apresentada pelas Forças Armadas peruanas e cobram justiça.

Comunidade mantém vigílias e manifestações um mês após a tragédia. Foto: Reprodução.
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Huancavelica (Peru) — Há um mês, cinco jovens saíram de casa para participar de uma atividade esportiva em Colcabamba, uma pequena localidade da região andina de Huancavelica. Nenhum deles voltou. O que deveria ser mais um dia de convivência entre amigos transformou-se em uma das ocorrências mais graves envolvendo militares peruanos nos últimos anos e segue provocando revolta, dor e questionamentos sobre o uso da força pelo Estado.

As famílias das vítimas afirmam que o caso está longe de ser esclarecido. Organizações de direitos humanos, advogados e especialistas também denunciam falhas nas primeiras investigações e alertam para o risco de impunidade.

A tragédia ocorreu em 25 de abril, quando militares dispararam contra uma caminhonete que transportava oito jovens. Cinco morreram e dois ficaram feridos. Inicialmente, as Forças Armadas afirmaram que se tratava de uma ação contra supostos integrantes do narcotráfico. Porém, as investigações posteriores não encontraram drogas nem armas entre os ocupantes do veículo, enfraquecendo a versão apresentada nos primeiros momentos após o episódio.

A busca por respostas levou o caso à Promotoria Supraprovincial Especializada em Direitos Humanos de Huancayo, que decidiu aplicar o Protocolo de Minnesota, instrumento internacional utilizado para investigar mortes que possam ter ocorrido em circunstâncias incompatíveis com a atuação legal do Estado.

Para o advogado das famílias, Anthony Crespo Barrionuevo, as falhas registradas logo após a ocorrência ampliaram a desconfiança dos parentes das vítimas. Segundo ele, os militares envolvidos chegaram a ser detidos, mas acabaram libertados após a promotoria responsável pelas primeiras diligências não solicitar a ampliação da prisão dentro do prazo legal.

“O Estado tem a obrigação de esclarecer a verdade. Estamos diante de um possível uso desproporcional da força e de uma presumível execução extrajudicial”, afirmou.

As denúncias não se limitam à atuação dos militares. Os familiares relatam dificuldades para obter informações, questionam a preservação da cena da ocorrência e afirmam que enfrentaram obstáculos para acompanhar os primeiros procedimentos realizados pelas autoridades.

Entre as vozes que mais simbolizam a dor provocada pelo episódio está a de Elsa Bendezú, irmã de Jaime Bendezú Paraguay, uma das vítimas fatais. Em meio à luta por justiça, ela recorda que o irmão era conhecido na comunidade pelo envolvimento com o esporte, pela participação em manifestações culturais e pelo apoio financeiro aos pais idosos.

“Meu irmão saiu para praticar esporte e nunca voltou. O mataram. Queremos justiça porque ele não era criminoso”, declarou.

A indignação das famílias ganhou força em Huancavelica, região historicamente marcada por desigualdades sociais e pela sensação de abandono em relação aos grandes centros políticos do país. Para muitos moradores, a forma como o caso foi conduzido revela uma diferença de tratamento entre as populações do interior e os habitantes da capital.

Essa percepção foi compartilhada pelo ex-promotor José Domingo Pérez durante um encontro sobre direitos humanos realizado na região.

“Parece que a vida não vale o mesmo para um peruano que vive em Huancavelica e para alguém que vive em Lima”, afirmou.

A declaração sintetiza uma discussão que ultrapassa os limites do caso. Para organizações sociais, a morte dos jovens expõe problemas mais profundos relacionados ao funcionamento das instituições, à responsabilização de agentes públicos e à proteção dos direitos humanos em regiões historicamente marginalizadas.

Outro elemento que tem alimentado as críticas é a recente ampliação das garantias legais concedidas a integrantes das Forças Armadas durante operações de segurança. Entidades de direitos humanos temem que essas mudanças acabem dificultando a responsabilização em casos envolvendo mortes de civis.

A Associação Pró-Direitos Humanos (Aprodeh) acompanha o caso e cobra uma investigação independente. A entidade também criticou a decisão do Congresso peruano de rejeitar iniciativas que buscavam ampliar o debate sobre a responsabilidade política pelo episódio.

Para Fany Yauri, coordenadora regional da organização, o país não pode permitir que a tragédia seja reduzida a estatísticas.

“As vítimas não são números. Eram jovens com projetos de vida interrompidos”, afirmou.

Enquanto a investigação segue em andamento, Colcabamba permanece em luto. Vigílias, manifestações e encontros comunitários continuam reunindo familiares, amigos e moradores que se recusam a aceitar o esquecimento. O que começou como a busca por explicações para a morte de cinco jovens transformou-se em uma cobrança mais ampla por verdade, justiça e respeito à vida em uma das regiões mais pobres do Peru.


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