Enchentes, mortes e apagões atingem dez regiões chilenas

Enchentes, mortes e apagões atingem dez regiões chilenas

Rios atmosféricos, ventos intensos e solos saturados ampliam o risco de enchentes, deslizamentos e novos danos no centro e no sul do país.

Moradores deixam áreas ameaçadas pela cheia dos rios. Foto: VTV.
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Santiago/Chile – O temporal histórico no Chile deixou quatro mortos, centenas de pessoas desabrigadas e comunidades inteiras isoladas, enquanto chuvas extremas, ventos fortes e rios em cheia atingem dez das 16 regiões do país. Mais de 374 mil imóveis permaneciam sem energia elétrica neste sábado (18), e autoridades mantinham evacuações em áreas onde a precariedade habitacional colocou famílias diante do avanço das águas.

Considerado o sistema frontal mais intenso a atingir o Chile em cerca de três décadas, o fenômeno provocou inundações, deslizamentos, interrupções de estradas e danos em milhares de residências. O balanço mais recente contabilizava 516 pessoas afetadas diretamente, 800 acolhidas em abrigos e 1.181 isoladas, além de moradores temporariamente incomunicáveis no norte do país.

Ao menos 16 casas foram destruídas, 291 sofreram danos graves e mais de 5 mil tiveram estragos menores. A dimensão da emergência ainda pode aumentar, principalmente porque os solos estão saturados e novas precipitações eram esperadas em regiões já castigadas.

As rajadas de vento superaram os 100 quilômetros por hora em diferentes áreas e chegaram a 160 quilômetros por hora em pontos do território chileno. Árvores, postes e redes elétricas foram derrubados. Em Coquimbo, no norte do país, um guindaste de grande porte tombou durante o temporal.

A Direção Meteorológica do Chile atribui a intensidade das chuvas a uma sucessão de sistemas frontais associada a rios atmosféricos, corredores de umidade capazes de transportar grandes volumes de vapor de água.

“Nos encontramos sob a presença de uma sucessão de sistemas frontais acompanhados de um rio atmosférico intenso e de características excepcionais, cuja intensidade e extensão o situam entre os episódios mais significativos registrados nos últimos anos.”

O diretor da instituição, Gastón Torres, alertou que o volume de precipitações pode colocar o episódio entre os mais intensos já registrados no país durante o mês de julho.

Os acumulados chegaram a níveis históricos em áreas da Região Metropolitana de Santiago, onde algumas estações registraram mais de 200 milímetros de chuva. Valparaíso, O’Higgins, Maule, Ñuble, Biobío, La Araucanía e outras regiões do centro e do sul também enfrentaram alagamentos, rios transbordados e problemas de mobilidade.

Em Talagante, na periferia da capital, equipes de emergência atuaram na retirada de moradores do acampamento Ribera del Río, assentamento instalado no leito do rio Mapocho. Militares, policiais e bombeiros percorreram a área para alertar as famílias sobre o risco de inundação.

“Há um risco iminente e não quero que ninguém morra. O rio sempre retoma o seu leito. Aqui, a última grande cheia foi há 23 anos.”

Outros assentamentos próximos ao rio Maipo, na região de Puente Alto, também foram evacuados preventivamente. A emergência expôs novamente como a falta de moradia adequada obriga famílias de baixa renda a ocupar terrenos sujeitos a enchentes, deslizamentos e outras ameaças ambientais.

Em Penco, na região de Biobío, o avanço do mar e as fortes ressacas inundaram moradias nas áreas costeiras de Cerro Verde Bajo, Lirquén e La Poza. Parte dos moradores resistiu às ordens de evacuação, dificultando o trabalho das equipes de emergência.

O município ainda tentava se recuperar dos incêndios florestais de janeiro, que mataram 19 pessoas e deixaram centenas de famílias atingidas. Em poucos meses, a população passou do fogo às enchentes, sem ter concluído a reconstrução dos bairros devastados.

O presidente José Antonio Kast viajou a Biobío para acompanhar as operações. Esta é a primeira grande emergência climática enfrentada pelo governo desde que o político de extrema direita assumiu a Presidência, em 11 de março de 2026.

“Temos que tirar lições: existem lugares que não são habitáveis.”

Kast também defendeu a cooperação entre diferentes níveis de governo durante o atendimento às famílias afetadas.

“Não há diferenças políticas quando há chilenos desabrigados ou frentes de mau tempo que só podemos mitigar, não deter.”

As aulas foram suspensas em várias regiões e o governo decretou medidas preventivas diante da possibilidade de novas enchentes. As atenções se concentram também no Atacama e em Coquimbo, onde comunidades e autoridades enfrentam estruturas urbanas pouco preparadas para volumes extremos de chuva.

Enquanto a água avança, a emergência deixa uma advertência que vai além da intensidade do fenômeno meteorológico: os efeitos do temporal não atingem todos da mesma forma. Famílias que vivem em assentamentos precários, áreas costeiras ou margens de rios permanecem mais expostas à perda da casa, ao isolamento e à demora na reconstrução.


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