Ataque a terreiro reacende debate sobre intolerância religiosa em Foz

Ataque a terreiro reacende debate sobre intolerância religiosa em Foz

Pedradas, ameaças e ofensas contra casa de matriz africana mobilizam lideranças religiosas e reforçam alerta sobre crimes motivados pela fé

Polícia Civil investiga a autoria do episódio ocorrido no domingo. Foto: Video.
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Foz do Iguaçu (PR) – Um ataque contra o Ilê Asé Iemanjá e Oxóssi com Caboclo Sete Léguas, casa de Umbanda e Candomblé localizada na região do Parque Presidente, voltou a expor uma realidade denunciada por diferentes comunidades religiosas do país: a intolerância religiosa continua produzindo medo, violência e tentativas de intimidação contra pessoas que exercem sua fé. O caso aconteceu na noite de domingo (21) e está sendo investigado pela Polícia Civil do Paraná.

Imagens de câmeras de segurança mostram um homem permanecendo por vários minutos em frente ao imóvel, fazendo ameaças, proferindo ofensas relacionadas à religião praticada no local e arremessando pedras contra a propriedade. Segundo integrantes da comunidade, familiares participavam de uma atividade religiosa quando a situação começou. Crianças que estavam presentes precisaram ser retiradas do espaço principal e levadas para áreas internas por segurança.

Além dos danos provocados na estrutura do imóvel, uma quartinha de água utilizada em rituais religiosos foi destruída. Conforme o boletim de ocorrência registrado na 6ª Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu, o suspeito também teria exigido que os frequentadores deixassem o local e utilizado expressões ofensivas dirigidas à prática religiosa desenvolvida pela comunidade.

Os responsáveis pelo terreiro afirmam que o agressor repetiu frases associadas à tentativa de impor uma crença religiosa aos frequentadores da casa. Para integrantes da comunidade, o episódio ultrapassa os danos materiais e representa uma tentativa de intimidação contra pessoas que se reuniam pacificamente para exercer um direito garantido pela Constituição Federal.

A Polícia Civil confirmou o registro da ocorrência e informou que as investigações seguem em andamento. Vídeos e fotografias dos danos causados foram entregues aos investigadores e devem auxiliar na identificação do autor. Até o momento, ninguém havia sido preso.

O caso provocou manifestações de solidariedade de diferentes segmentos religiosos da cidade. Em nota pública, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil em Foz do Iguaçu afirmou que nenhuma pessoa ou comunidade deve ser intimidada em razão de sua fé e destacou que a liberdade religiosa precisa ser garantida a todas as tradições.

No documento, a igreja ressalta que a convivência democrática exige respeito às diferentes formas de expressão religiosa e lembra que a fé não pode ser utilizada como instrumento de violência, exclusão ou humilhação. A manifestação ganhou repercussão por partir de uma comunidade cristã em apoio a uma casa de matriz africana, reforçando uma mensagem de respeito mútuo entre diferentes crenças.

O episódio também recebeu atenção de lideranças da comunidade muçulmana da cidade. Para o líder religioso da Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, Sheikh Oussama El Zahed, a defesa da liberdade religiosa deve ser uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade.

“Intolerância religiosa não é liberdade de expressão. Todos os líderes religiosos têm responsabilidade de carregar esta bandeira da convivência, da paz, da harmonia e do amor entre as pessoas.”

A preocupação das lideranças religiosas não se restringe ao caso ocorrido no terreiro. Em fevereiro deste ano, duas mulheres muçulmanas foram agredidas dentro de um shopping de Foz do Iguaçu após um homem tentar retirar seus hijabs, vestimenta utilizada por parte das mulheres islâmicas como expressão de fé. O suspeito foi preso em flagrante por lesão corporal e racismo. Embora os episódios tenham características distintas, ambos reacenderam o debate sobre a necessidade de combater manifestações de intolerância dirigidas a diferentes grupos religiosos.

A legislação brasileira prevê punições para atos de discriminação motivados por religião. Para representantes de diversas tradições religiosas presentes em Foz do Iguaçu, porém, a resposta ao problema também passa pela educação, pelo diálogo e pela promoção da convivência entre diferentes crenças em uma cidade marcada pela diversidade cultural e religiosa.

Como resposta ao ataque, integrantes da comunidade de terreiro, apoiadores e lideranças religiosas convocaram um ato pacífico em defesa da liberdade religiosa. A mobilização está marcada para o próximo dia 27 de junho, às 16h, em frente ao Ilê Asé Iemanjá e Oxóssi com Caboclo Sete Léguas, na Rua Henrique Boiarski, nº 31. A proposta é reunir representantes de diferentes tradições religiosas e moradores da cidade para uma roda de conversa sobre intolerância religiosa, reafirmando que nenhuma pessoa deve sofrer violência, discriminação ou perseguição por causa de sua fé.


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