Foz do Iguaçu, PR – Quem mora na fronteira cruza pontes todos os dias para trabalhar, estudar ou fazer compras, mas descobre raramente a tempo que há um show gratuito acontecendo do outro lado do rio. Para tentar encurtar essa distância informativa, a Fundação Cultural de Foz do Iguaçu firmou parceria com o Cultura Trinacional, um projeto independente que vai reunir em uma única plataforma na internet os eventos artísticos e comunitários promovidos pelo poder público em cinco cidades vizinhas do Brasil, da Argentina e do Paraguai. A ferramenta tem estreia prevista para 17 de novembro de 2026.
Na prática, a iniciativa vai mapear a programação sem cobrança de ingresso em Foz do Iguaçu, em Puerto Iguazú (Argentina) e em três municípios do lado paraguaio: Ciudad del Este, Hernandarias e Presidente Franco. O catálogo prevê apresentações musicais, peças teatrais, sessões de cinema, mostras de dança, feiras de rua e atos comunitários. A ideia central é fazer com que moradores dos bairros periféricos e visitantes consigam consultar o que acontece no território compartilhado com a mesma facilidade com que buscam programas no próprio bairro.
A articulação ganha tração meses após a entrada em vigor de uma regra diplomática que mexe diretamente com o cotidiano da região. Em abril de 2026, o governo federal publicou o Decreto nº 12.948, oficializando o Acordo sobre Localidades Fronteiriças Vinculadas entre os países do Mercosul. O texto prevê facilidades para a circulação de bens, instrumentos de trabalho e agentes culturais, além de reconhecer a ligação territorial direta entre Foz e Puerto Iguazú, Puerto Iguazú e Presidente Franco, e a mancha urbana formada por Foz, Ciudad del Este, Franco e Hernandarias.
Com a entrada da autarquia municipal iguaçuense, a plataforma ganha um canal direto para alimentar o sistema com o calendário de Foz e fazer a ponte com os coletivos da cidade. Segundo a diretora-presidente do órgão, Patrícia Liliana Iunovich, o serviço responde a uma demanda antiga: “O Cultura Trinacional traz uma proposta muito importante tanto para a comunidade da região como para os turistas que visitam nosso território e querem ter uma experiência de morador, conhecendo a riqueza da nossa cultura, que é muito plural e única ao mesmo tempo”.
A estruturação do projeto reúne profissionais com atuação em frentes distintas na fronteira: o produtor Juca Rodrigues, o consultor Jihad Abu Ali e o maestro Gilson S. Sousa.
Com mais de três décadas de atuação nos bastidores culturais da região, Juca Rodrigues afirma que o intercâmbio artístico sempre existiu de forma espontânea, mas esbarrava na falta de divulgação conjunta. “A produção cultural da nossa região não termina quando chegamos a uma ponte ou a uma fronteira; pelo contrário, ela fortalece o território que convive diariamente com artistas, grupos, manifestações e públicos circulando constantemente entre essas cidades. O Cultura Trinacional nasce para dar visibilidade a essa riqueza e aproximar ainda mais essas experiências, fortalecendo o conceito de fortalecimento da cultura no território transfronteiriço”, explica o produtor.
Para Jihad Abu Ali, diretor da Majlis Consultoria Internacional e especialista em relações com prefeituras da região, a iniciativa tira as diretrizes do Mercosul do papel burocrático: “O Cultura Trinacional surge em um momento especialmente importante para a integração da nossa região. O Acordo sobre Localidades Fronteiriças Vinculadas reforça a cooperação entre as comunidades de fronteira e reconhece a cultura como uma das dimensões desse processo. O Cultura Trinacional transforma esse espírito de integração em uma ferramenta prática, conectando moradores, instituições, produtores e a programação cultural da Argentina, do Brasil e do Paraguai”.
Já a montagem técnica da ferramenta, que aplica recursos de inteligência artificial para organizar as agendas públicas, ficou a cargo de Gilson S. Sousa. O maestro ressalta que o gargalo na fronteira nunca foi a falta de arte, mas a barreira na comunicação: “A cultura já atravessa diariamente as fronteiras. O que queremos é fazer a informação atravessar também. Uma pessoa que está em Foz deve conseguir descobrir o que acontece em Puerto Iguazú ou Ciudad del Este com a mesma facilidade com que encontra um evento na própria cidade. A tecnologia entra justamente para aproximar esse território cultural que já existe”.
O site será gratuito e terá navegação em português, espanhol e inglês, trazendo filtros por localidade, data e linguagem artística, além de detalhes sobre horários, classificação etária e rotas de acesso. A comunicação oficial respeitará a ordem alfabética dos vizinhos — Argentina, Brasil e Paraguai —, com a perspectiva de que, após a estreia, coletivos comunitários e produtores independentes também possam cadastrar suas próprias atividades.



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