Assunção, Paraguai – O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5/11). A decisão antecipa a votação de um pedido de impeachment aprovado pela Câmara dos Deputados, em meio ao colapso do sistema financeiro que deixou cerca de 3 milhões de pessoas sem acesso aos seus recursos no país.
O gatilho do terremoto político e social foi a derrocada do banco digital Ueno. O Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a liquidação e o fim das operações da entidade na última terça-feira (3/11), após constatar insolvência e incapacidade de honrar os compromissos por conta de empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio grupo controlador, o Grupo Vázquez.
O fechamento da instituição atingiu em cheio a população e o setor público: o banco concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos estatais, incluindo verbas do Instituto de Previdência Social. A deputada oposicionista Rocío Vallejo denunciou o impacto concreto da crise na vida das pessoas durante a sessão legislativa.
“Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou.”
A quebra atingiu o Palácio dos López pelas ligações diretas de Peña com o grupo financeiro. Economista de formação, Peña figurou até março do ano passado como acionista da Ueno Holding, controladora da entidade liquidada. Parlamentares acusam o mandatário de conflito de interesses, manipulação regulatória e encobrimento de irregularidades por parte do Banco Central.
Os desdobramentos do escândalo provocaram o colapso da sustentação política do Executivo. Figuras centrais da base aliada, como o presidente do Congresso, Basilio Nuñez, e o líder do conservador Partido Colorado, Horacio Cartes, retiraram o apoio ao governo e passaram a defender abertamente a deposição do presidente.
Em pronunciamento oficial veiculado em vídeo e nas redes sociais, Peña justificou a entrega do cargo sustentando a busca pela estabilização institucional do país.
“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à presidência da República. O que faço é pensar na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas. O que faço com absoluto respeito à nossa Constituição Nacional e aos mecanismos institucionais e democráticos que nos temos dado como nação.”
“Hoje, devemos mostrar, mais uma vez, que respeitamos a democracia.”
Antes de deixar a Presidência, Peña promulgou uma legislação destinada a acelerar a recuperação dos valores retidos pelos poupadores do banco e defendeu o isolamento do tema financeiro das disputas partidárias.
“Todos os setores políticos coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse.”
A derrocada também atingiu a cúpula do órgão regulador. O presidente do BCP, Carlos Carvallo, que presidia a autoridade monetária desde 2023, deixou o cargo. Antes de assumir o órgão responsável pela fiscalização do setor bancário, Carvallo havia sido presidente do próprio Banco Ueno.
Na esfera legal, a Procuradoria acusou formalmente 27 pessoas vinculadas ao banco digital, resultando no bloqueio judicial de bens. Executivos da instituição se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão. Peña afirmou publicamente que os responsáveis pelas irregularidades responderão perante a Justiça sem exceções.
O pedido formal de renúncia será encaminhado para apreciação e deliberação do Congresso Nacional paraguaio. Caso os parlamentares rejeitem o requerimento, o processo de impeachment instaurado na Câmara continuará tramitando nas instâncias legislativas.
Com 47 anos, Santiago Peña havia assumido a presidência em agosto de 2023, após vencer as eleições de abril daquele ano. Ele deu continuidade ao domínio do Partido Colorado, sucedendo no cargo seu correligionário Mario Abdo Benítez.



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