Crise na Argentina fecha 40 mil quiosques na gestão Milei

Crise na Argentina fecha 40 mil quiosques na gestão Milei

Representantes dos comerciantes alertam para risco de colapso frente ao encarecimento de aluguéis, impostos e insumos básicos na Argentina.

Consumo nas bancas argentinas cai até 50%. Foto: Reprodução/Internet.
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BUENOS AIRES, ARGENTINA — O estrangulamento do poder de compra e o choque nos custos operacionais devastaram a rede de comércio de proximidade na Argentina. Desde dezembro de 2023, sob a gestão do presidente Javier Milei, o país registrou o fechamento de mais de 40 mil bancas de conveniência — conhecidas nacionalmente como quiosques. Dados divulgados pela União dos Quiosqueiros da República Argentina (UKRA) apontam que entre 50 e 70 estabelecimentos encerram as atividades diariamente. É o pior cenário produtivo para o setor desde a crise econômica de 2001.

A derrocada atinge diretamente a economia das famílias proprietárias de pequenos negócios. Das cerca de 100 mil bancas em funcionamento há pouco mais de dois anos e meio, restam atualmente 59 mil em todo o território argentino. A UKRA confirma o encerramento exato de 41 mil unidades no período. Os reflexos variam conforme a geografia e a renda. Em bairros de classe média de Buenos Aires, o volume de vendas despencou cerca de 50%. Na região metropolitana e no interior do país, comércios relatam faturar até três vezes menos do que há três anos. Já em zonas de maior renda, como Puerto Madero, Recoleta e Belgrano, o recuo é de 20%.

QUEDA DE VENDAS E NOVO PERFIL A mudança drástica nos hábitos de consumo reduziu o faturamento das bancas entre 30% e 40%. Itens supérfluos do cotidiano — como doces, alfajores, bebidas e salgadinhos — deixaram de entrar na sacola. Levantamento da consultoria Scentia confirma a tendência: a venda do canal recuou 4,6% em junho frente ao mesmo mês do ano anterior e 4,4% na comparação mensal, acumulando retração de 2,3% em 2026.

A vulnerabilidade social reapareceu no balcão através do fiado. “As pessoas não têm dinheiro, compram no cartão de crédito e voltou o ‘eu pago na próxima semana, quando receber'”, relatou Ernesto Acuña, vice-presidente da UKRA. Acuña destaca que o empobrecimento da população castiga o pequeno comerciante de forma inédita em décadas: “É visível que há menos dinheiro no bolso das pessoas. Elas reorganizam seus gastos, e o quiosque acaba perdendo. O setor está sendo duramente castigado”.

CUSTOS FIXOS E CONCORRÊNCIA A perda de renda coincide com uma escalada implacável nas tarifas de luz, gás, aluguéis, tributos e mercadorias. “Há colegas pagando mais pela conta de luz do que pelo aluguel. Isso nunca tinha acontecido”, desabafou Acuña, detalhando que muitos comerciantes vendem a preço de custo na tentativa de cobrir despesas básicas. A pressão é agravada pela concorrência desleal e pelo avanço das grandes cadeias corporativas de conveniência, além de supermercados, atacadistas, farmácias, postos de combustíveis e aplicativos. De acordo com o dirigente da entidade, enquanto as redes absorvem prejuízos pontuais, “para cada quiosque de rede que abre, entre seis e oito estabelecimentos tradicionais fecham”. Somam-se ao quadro as queixas contra estabelecimentos que operam sem arcar com a mesma carga tributária e requisitos regulatórios.

A UKRA define o momento como um limite operacional dramático. “Estamos à beira do colapso: se aumentamos os preços, não vendemos; se mantemos os valores, quebramos”, pontuou a representação da categoria. Diante do risco iminente de endividamento, donos optam por encerrar as atividades de forma antecipada. Entidades empresariais do setor cobram medidas públicas urgentes para estimular o mercado interno e proteger os pequenos comércios, vistos como elos essenciais para a manutenção de empregos diretos e para a vida social dos bairros.


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