O futuro não virá sozinho: sustentabilidade e justiça social no Brasil

O futuro não virá sozinho: sustentabilidade e justiça social no Brasil

Povos tradicionais, juventude e trabalhadores estão entre os mais afetados pelos impactos ambientais.

Justiça ambiental e justiça social são desafios inseparáveis do século XXI. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
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*Por Amilton Farias

O futuro costuma ser tratado como uma promessa distante. Mas a verdade é que ele já começou. Está presente nas enchentes que devastam cidades inteiras, nas secas prolongadas que atingem comunidades rurais, nos incêndios que consomem florestas e nos milhões de brasileiros que enfrentam diariamente os efeitos de um modelo econômico incapaz de conciliar desenvolvimento, justiça social e preservação ambiental.

Durante décadas, ouvimos que a tecnologia resolveria todos os problemas da humanidade. Que o crescimento econômico seria suficiente para gerar prosperidade para todos. Que os mercados encontrariam soluções para as crises ambientais e sociais. No entanto, a realidade tem demonstrado o contrário.

O Brasil entrou na segunda metade da década de 2020 convivendo simultaneamente com eventos climáticos extremos, concentração de renda, insegurança alimentar e profundas desigualdades territoriais. Os mais atingidos continuam sendo os mesmos: trabalhadores pobres, moradores das periferias, povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares e populações tradicionais.

Não se trata apenas de uma crise ambiental.

Trata-se de uma crise civilizatória.

Quando rios são contaminados, florestas destruídas e territórios transformados em mercadoria, não estamos apenas perdendo recursos naturais. Estamos comprometendo a sobrevivência de comunidades inteiras, apagando memórias coletivas e colocando em risco as futuras gerações.

Os efeitos das mudanças climáticas já não pertencem ao campo das previsões científicas. Eles podem ser vistos nas enchentes do Sul do país, nas secas que atingem o Norte e o Nordeste, nos recordes sucessivos de temperatura e na crescente vulnerabilidade das populações mais pobres.

Diante desse cenário, a sustentabilidade deixou de ser uma pauta exclusiva de ambientalistas. Tornou-se uma questão de sobrevivência coletiva.

Mas não haverá sustentabilidade sem justiça social.

Não haverá transição ecológica verdadeira enquanto milhões de pessoas permanecerem excluídas do acesso à educação, à moradia digna, à saúde, à renda e aos direitos básicos.

A luta ambiental e a luta social são partes da mesma batalha.

É impossível defender a natureza ignorando a fome.

Da mesma forma, é impossível combater a pobreza destruindo os territórios que garantem a vida.

A juventude tem papel central nesse processo. São os jovens que ocuparão as cidades, as universidades, os movimentos sociais, os espaços culturais e os meios de comunicação nas próximas décadas. São eles que enfrentarão os impactos mais severos das decisões tomadas hoje.

Por isso, o desafio não é apenas preservar o planeta.

É construir uma sociedade capaz de garantir dignidade para todos os que nela vivem.

A solidariedade, muitas vezes tratada como um valor abstrato, tornou-se uma necessidade concreta. Em tempos de individualismo extremo e polarização permanente, reconhecer a humanidade do outro passou a ser um ato de resistência.

O mesmo vale para a democracia.

Uma sociedade sustentável não pode conviver com o autoritarismo, o racismo, a violência política, a intolerância religiosa ou a negação dos direitos humanos. Não existe equilíbrio ambiental onde a dignidade humana é constantemente atacada.

O Brasil possui riquezas naturais extraordinárias, uma diversidade cultural única e uma população capaz de construir soluções inovadoras para seus desafios históricos.

Mas isso exige escolhas.

Exige abandonar a lógica de que o lucro pode estar acima da vida.

Exige compreender que desenvolvimento não significa acumulação para poucos, mas bem-estar coletivo.

Exige coragem para enfrentar interesses econômicos que lucram com a destruição ambiental e com a exclusão social.

Mais do que nunca, precisamos recuperar a capacidade de pensar o país como um projeto comum.

A crise climática nos ensina uma lição simples: ninguém se salva sozinho.

O futuro que desejamos dependerá da nossa capacidade de cuidar uns dos outros, proteger os territórios que habitamos e construir relações mais justas entre sociedade, economia e natureza.

O mundo não será transformado por promessas.

Será transformado pelas escolhas que fazemos agora.

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*Amilton Farias é jornalista e editor-chefe do Portal Fronteira Livre

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Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.


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