Segurança alimentar avança e fome recua no Sul do país

Segurança alimentar avança e fome recua no Sul do país

Dados mostram redução dos casos mais graves de insegurança alimentar e indicam melhora no acesso à alimentação para milhões de pessoas.

Municípios ampliaram participação em ações voltadas à segurança alimentar. Foto: Lyon Santos/MDS
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Curitiba (PR) — A fome não desaparece apenas dos indicadores estatísticos. Ela desaparece quando a comida volta a ocupar espaço na mesa das famílias, quando crianças conseguem frequentar a escola sem enfrentar o dia de estômago vazio e quando trabalhadores deixam de conviver diariamente com a incerteza sobre a próxima refeição.

Os dados mais recentes sobre segurança alimentar mostram uma mudança significativa nesse cenário na Região Sul do país. Entre 2022 e 2024, o percentual de domicílios em situação de segurança alimentar e nutricional passou de 51,8% para 86,4%, enquanto os casos mais graves de insegurança alimentar — aqueles associados à fome — caíram de 9,9% para 1,7%.

Na prática, os números indicam que cerca de 2,5 milhões de pessoas deixaram de enfrentar a fome na região nesse período. Ao mesmo tempo, aproximadamente 10,9 milhões passaram a viver em condições de maior estabilidade no acesso à alimentação.

Os resultados surgem após um período em que o retorno da fome voltou a ocupar o centro do debate nacional. Nos últimos anos, organizações sociais, pesquisadores e entidades ligadas à segurança alimentar alertaram para o crescimento das dificuldades enfrentadas por famílias que perderam renda, emprego e acesso a políticas públicas de proteção social.

A recuperação observada nos indicadores coincide com a retomada de programas de transferência de renda, fortalecimento da agricultura familiar, ampliação das compras públicas de alimentos e reestruturação de políticas voltadas ao combate à pobreza.

O papel das políticas públicas

Os números divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social apontam para a retomada do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), estrutura criada para articular ações entre União, estados, municípios e sociedade civil.

Embora o tema costume aparecer em debates técnicos, seus efeitos se materializam no cotidiano de milhões de pessoas. São programas de alimentação escolar, aquisição de alimentos produzidos por agricultores familiares, cozinhas comunitárias, restaurantes populares e iniciativas de assistência social que ajudam a garantir o acesso regular à alimentação.

Na Região Sul, os dados mostram redução em todos os níveis de insegurança alimentar. Além da queda da fome, também diminuíram os casos em que as famílias convivem com a preocupação constante de faltar comida ou precisam reduzir a qualidade da alimentação para conseguir manter as refeições.

Para especialistas da área, esse movimento demonstra que o enfrentamento da fome depende de uma combinação de fatores econômicos e sociais. O aumento da renda, a geração de empregos e a existência de redes de proteção pública costumam atuar de forma conjunta na redução da vulnerabilidade alimentar.

Municípios ganham protagonismo

A expansão do Sisan também ampliou a participação dos municípios na implementação de políticas voltadas à segurança alimentar.

Em poucos anos, o número de cidades integradas ao sistema mais que dobrou no Sul do país. Com isso, aumentou a presença de conselhos municipais, programas de alimentação saudável, compras institucionais da agricultura familiar e estruturas de apoio à população em situação de vulnerabilidade.

Os dados do IBGE mostram que a maioria dos municípios da região já desenvolve ações relacionadas à promoção da alimentação adequada, enquanto milhares de famílias são atendidas por programas sociais ligados ao abastecimento alimentar.

Ao mesmo tempo, a agricultura familiar continua ocupando papel central nesse processo. Grande parte dos alimentos adquiridos para a merenda escolar e para programas públicos de abastecimento tem origem em pequenas propriedades rurais, fortalecendo economias locais e contribuindo para a circulação de renda nos territórios.

A fome continua sendo um desafio

Apesar da melhora dos indicadores, o problema está longe de ser considerado superado.

Milhares de famílias ainda convivem com algum grau de insegurança alimentar, seja pela instabilidade da renda, pelo aumento do custo de vida ou pelas desigualdades históricas que atravessam o país.

A experiência brasileira mostra que a redução da fome não ocorre de forma automática. Ela depende da continuidade de políticas públicas, da capacidade de coordenação entre diferentes esferas de governo e da participação de organizações sociais que atuam diretamente nos territórios.

Mais do que uma questão estatística, a segurança alimentar permanece ligada a um dos direitos mais básicos da vida em sociedade: o direito de comer todos os dias com dignidade.

Quando a fome diminui, não melhora apenas um indicador. Melhoram as condições para estudar, trabalhar, cuidar da saúde e construir perspectivas de futuro. É por isso que os números divulgados agora ultrapassam o campo da gestão pública e ajudam a medir algo maior: a capacidade de uma sociedade garantir que ninguém seja privado do alimento necessário para viver.


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