Brasília (DF) — Para milhões de brasileiros, a passagem de ônibus representa uma despesa invisível para quem observa apenas as estatísticas macroeconômicas. Mas, na prática, ela pesa diariamente no orçamento de trabalhadores, estudantes, desempregados e famílias que dependem do transporte coletivo para acessar emprego, educação, saúde e serviços públicos.
Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) recolocou essa discussão no centro do debate nacional ao estimar que a adoção ampla da Tarifa Zero no transporte público poderia redistribuir cerca de R$ 60 bilhões por ano para a economia brasileira. O valor corresponde aos recursos que deixariam de ser gastos com passagens e poderiam ser direcionados para outras necessidades básicas, como alimentação, moradia, medicamentos e consumo local.
A pesquisa surge em um momento em que diferentes cidades brasileiras discutem alternativas para enfrentar um dos principais problemas urbanos do país: o alto custo da mobilidade para a população de baixa renda.
Mais do que uma questão de transporte, o debate envolve desigualdade social. Em muitas cidades, o valor das passagens consome uma parcela significativa da renda de trabalhadores que dependem de longos deslocamentos diários. Para quem vive nas periferias, o acesso ao emprego, à escola ou aos serviços públicos frequentemente está condicionado à capacidade de pagar pelo deslocamento.
Segundo o levantamento, dos R$ 60 bilhões estimados, cerca de R$ 15 bilhões já correspondem às gratuidades atualmente garantidas para grupos específicos, como idosos e estudantes. Os outros R$ 45 bilhões representariam o potencial de redistribuição gerado pela ampliação da gratuidade para toda a população usuária do transporte coletivo.
A proposta da Tarifa Zero não é nova. Municípios como Maricá, no Rio de Janeiro, e São Caetano do Sul, em São Paulo, já adotam modelos de transporte gratuito financiados por diferentes fontes de recursos públicos. Em âmbito nacional, o tema vem sendo estudado como alternativa para ampliar o acesso à mobilidade e reduzir barreiras econômicas que limitam a circulação da população nas cidades.
Para especialistas, porém, a discussão não pode se restringir aos benefícios potenciais da medida. O principal desafio continua sendo o financiamento do sistema. O economista Renato Schwambach Vieira, da Universidade de São Paulo (USP), alerta que os impactos positivos estimados pelo estudo dependem diretamente da forma como a política seria financiada.
Caso a gratuidade seja sustentada por novos tributos ou aumentos de impostos que recaiam sobre a população, parte dos ganhos econômicos projetados poderá ser reduzida. A questão central deixa de ser apenas quanto custa a passagem e passa a envolver quem financia o transporte público e como esse custo é distribuído na sociedade.
A comparação frequente com programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, também exige cautela. Enquanto programas sociais transferem recursos diretamente para famílias em situação de vulnerabilidade, a Tarifa Zero atua sobre um serviço específico. Seus efeitos estão relacionados à redução dos custos de deslocamento e à ampliação do acesso à cidade.
Ainda assim, o impacto social pode ser significativo. Trabalhadores informais, desempregados em busca de recolocação, estudantes e famílias de baixa renda estão entre os grupos que mais sentem o peso da tarifa no orçamento doméstico. Para essas pessoas, a gratuidade pode representar não apenas economia financeira, mas também maior acesso a oportunidades de trabalho, educação e serviços essenciais.
A discussão sobre a Tarifa Zero revela um debate cada vez mais presente nas grandes cidades brasileiras: até que ponto o transporte público deve ser tratado como mercadoria e em que momento passa a ser reconhecido como um direito fundamental.
Em um país marcado por profundas desigualdades urbanas, a mobilidade continua sendo uma das fronteiras que separam quem consegue acessar plenamente a cidade daqueles que permanecem limitados pelas barreiras econômicas do deslocamento. É justamente nesse ponto que o debate sobre a Tarifa Zero deixa de ser apenas uma discussão sobre ônibus e passagens para se transformar em uma reflexão sobre inclusão social, cidadania e direito à cidade.


















