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Anvisa apura 13 casos de perda visual ligados a canetas de emagrecer

Agência monitora 13 relatos de lesão no nervo óptico com uso de semaglutida e tirzepatida; especialistas alertam contra o uso estético.

Medicamentos para controle de diabetes e obesidade exigem prescrição e acompanhamento médico rigoroso. Imagem: Carolina Rudah/iStock

Brasília, DF – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) abriu investigação para apurar 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia) em pessoas que usavam medicamentos agonistas de GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras e antidiabéticas. Trata-se de uma lesão rara no nervo óptico que provoca perda súbita de visão, muitas vezes permanente, causada pela falta de irrigação sanguínea no olho. O levantamento envolve quatro remédios com alta procura nas farmácias brasileiras: Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro.

A agência reguladora ressaltou que a inclusão do fármaco e do diagnóstico na mesma ficha do sistema de farmacovigilância não confirma relação direta de causa e efeito. Dos 13 casos sob apuração com agonistas de GLP-1, 12 envolvem a semaglutida e um a tirzepatida. Pelo detalhamento dos produtos, as fichas citam Ozempic (5 notificações), Wegovy (3), Wegovy FlexTouch (2), Rybelsus (2) e Mounjaro (1), com possibilidade de sobreposição de registros vindos de pacientes, médicos e laboratórios. Desde 2018, o painel geral da autarquia reuniu 24 registros de suspeitas de neuropatias ópticas isquêmicas, lista que também reúne quimioterápicos, imunomoduladores, outros remédios contra diabete e colírios.

O debate sobre a segurança visual desses tratamentos ganhou força após ações judiciais movidas nos Estados Unidos contra a farmacêutica Novo Nordisk, reveladas pelo jornal The Wall Street Journal. Até o momento, nenhum estudo científico comprovou o nexo causal definitivo. Uma pesquisa publicada na revista JAMA Ophthalmology com prontuários médicos apontou risco quatro a sete vezes maior de Noia entre quem tomava semaglutida em relação a outros tratamentos, mas os próprios autores alertaram que os pacientes já conviviam com diabete e fatores vasculares que favorecem o problema.

A Noia atua como uma espécie de infarto na porção frontal do nervo óptico: os microvasos entopem, as fibras nervosas morrem sem oxigênio e a visão de um dos olhos cai repentinamente, quase sempre sem dor. O diabete, por si só, já danifica a parede interna dos vasos sanguíneos e compromete a circulação ocular, assim como ocorre nos rins e membros inferiores.

“Essa é uma doença rara, mas que a gente tem em alguns pacientes com doenças preexistentes, como a diabete. Esse tipo de paciente já tem a doença atacando seus vasos, trazendo mais risco. Com isso, fica difícil saber se esse paciente já teria a doença pelo quadro dele ou se ele tem porque está usando o medicamento”, explicou Rubens Belfort Neto, oftalmologista com doutorado e pós-doutorado pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

Em resposta, a Novo Nordisk informou que seus ensaios clínicos não constataram aumento de episódios de Noia associados à semaglutida e que a relação de benefícios e riscos segue favorável. A Eli Lilly, dona do Mounjaro, comunicou que mantém monitoramento permanente dos dados de segurança, inclusive queixas oftalmológicas. Apesar de a causa não estar fechada, a Anvisa determinou em junho de 2025 que a neuropatia passe a constar na bula dos produtos com semaglutida como reação adversa muito rara.

Além dos casos de Noia, o banco de dados da Anvisa reúne outras 74 notificações de distúrbios na visão ligados às quatro formulações: Rybelsus lidera com 22 queixas, seguido de Wegovy (19), Mounjaro (17) e Ozempic (16). Visão embaçada ou turva soma 37 menções, enquanto comprometimento visual aparece em 29 relatos, ao lado de perda do centro do campo de visão e quedas súbitas de acuidade. Rubens Belfort Neto lembra que tais queixas são rotineiras no consultório médico e possuem causas variadas, sem comprovação de ligação com as injeções.

A recomendação técnica de sociedades médicas brasileiras é manter os tratamentos sob orientação profissional para obesidade e diabete descompensado, já que os riscos cardiovasculares das doenças superam o perigo teórico de lesão visual. No entanto, orienta-se a interrupção imediata da aplicação em pacientes com histórico da doença ou perda recente de visão, além de consultas oftalmológicas regulares para quem tem diabete. O perigo real, apontam os médicos, reside na automedicação e no consumo voltado apenas a fins estéticos.

“Todo remédio tem pequenos riscos e o benefício tem que ser maior do que o risco. Então, se alguém vai tomar esse remédio sem necessidade, só por vaidade, talvez não deva tomar”, disse Belfort Neto. Segundo o especialista, o público sem indicação clínica assume riscos graves sem necessidade real: “É nesse grupo que a conta entre risco e benefício deixa de fechar: quem não tem uma doença a tratar assume os efeitos adversos do remédio, ainda que raros, sem ganho equivalente para a saúde”.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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