Madri, Espanha – A imagem de Maricarmen Abascal, de 87 anos, sendo retirada em uma maca por bombeiros sob forte esquema policial percorreu a Espanha nesta semana e desencadeou uma onda de protestos pelo país. A idosa foi despejada da residência onde morava há 70 anos, no bairro do Retiro, no centro da capital, após uma decisão judicial que favoreceu o fundo de investimento proprietário do imóvel. O episódio comoveu a sociedade civil, levou mais de 10 mil pessoas às ruas e forçou a reabertura de negociações legislativas emergenciais entre os partidos no Parlamento espanhol.
A ação de despejo, executada na última quarta-feira, foi transmitida ao vivo por emissoras de TV durante horas. Centenas de manifestantes tentaram formar um bloqueio humano em frente ao prédio para proteger a moradora, mas foram retirados à força pela tropa de choque da polícia.
Maricarmen vivia no local desde 1956 e travava uma disputa judicial contra a desocupação há oito anos, período em que o edifício foi vendido e passou para a carteira de um fundo imobiliário. O antigo aluguel de 500 euros saltou para 1.650 euros, quantia superior à pensão mensal de 1.450 euros recebida pela aposentada. Segundo o Sindicato de Inquilinas de Madri, coletivo que encampou a defesa da idosa, pelo menos duas pessoas se ofereceram nas últimas semanas para arcar com a diferença e cobrir o valor cobrado, mas a empresa proprietária recusou qualquer tentativa de acordo e exigiu a reintegração de posse imediata.
A expulsão de Maricarmen gerou forte reação no cenário político. O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, classificou o caso como inaceitável: “O despejo de Maricarmen é uma tragédia social que não podemos aceitar nem enquanto país, nem, evidentemente, do ponto de vista das instituições públicas”, disse. Sánchez prometeu enviar com urgência ao Parlamento uma proposta de lei habitacional para proteger idosos e famílias vulneráveis.
Para viabilizar a matéria, as legendas que compõem o governo de esquerda (PSOE e Somar) retomaram conversas com bancadas de oposição, entre elas a sigla conservadora Juntos pela Catalunha (JxCat). Integrantes da equipe ministerial tentam apresentar o texto — apelidado nos corredores políticos e na imprensa de “decreto Maricarmen” — na reunião do Conselho de Ministros marcada para a próxima terça-feira, embora a data definitiva ainda dependa da costura dos votos parlamentares.
O episódio também ampliou o atrito entre o governo central e administrações regionais de direita. Sánchez cobrou responsabilidade dos partidos conservadores que barram medidas no Congresso e apontou negligência dos governos locais na área social, criticando nominalmente a presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, do Partido Popular (PP). O premiê declarou que o Executivo regional está “mais preocupado em comprar e vender com dinheiro público” apartamentos de “duzentos metros com terraço” do que em acudir pessoas em situação de vulnerabilidade, em alusão à recente polêmica sobre a compra de um imóvel oficial no centro de Madri, que, segundo suspeitas, seria para moradia pessoal de Ayuso, acusação que a governante nega.
Em resposta, Ayuso e porta-vozes da direção nacional do PP afirmaram que Sánchez explora o caso com fins políticos eleitorais e lembraram que a ordem judicial apenas aplicou a legislação em vigor, norma que o atual líder socialista manteve intacta ao longo dos últimos oito anos em que esteve no poder.
A situação de Maricarmen já havia chamado a atenção de órgãos institucionais e figuras públicas. O ouvidor-geral da Espanha, Ángel Gabilondo, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU e atletas como o atacante da seleção espanhola Borja Iglesias haviam feito apelos públicos exigindo uma solução digna para a aposentada e alertando para o impacto da crise habitacional.
A realidade enfrentada por Maricarmen espelha um quadro nacional crítico: dados oficiais apontam uma média de 44 despejos executados diariamente na Espanha. Nos últimos dez anos, o metro quadrado para locação no país praticamente dobrou, atingindo 15,1 euros em agosto, de acordo com medições do portal Idealista. No mesmo período, o preço médio de venda subiu mais de 50%, chegando a 2.355 euros por metro quadrado.
Após os protestos de quarta-feira em Madri, Barcelona e Oviedo, novos atos foram convocados pelo movimento popular. O Sindicato de Inquilinas de Madri organiza uma grande manifestação para este sábado na capital, sob a palavra de ordem “Nem uma Maricarmen mais”, cobrando o congelamento imediato dos aluguéis e o fim dos despejos de inquilinos vulneráveis por fundos financeiros.



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