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Mulheres na Cisjordânia enfrentam piora da violência e bloqueios

Pesquisa em 11 províncias revela que 40% dos lares liderados por mulheres foram desalojados e sofrem com falta de socorro básico.

Incursões militares israelenses e destruição de moradias obrigaram 40% das famílias chefiadas por mulheres a deixar suas casas. Foto: Issam Rimawi – Anadolu Agency

Cisjordânia Ocupada – Mulheres e meninas na Cisjordânia ocupada estão sob risco acentuado de violência, expulsão forçada de suas casas e restrições severas de locomoção. O diagnóstico faz parte de um levantamento da ONU Mulheres divulgado nesta terça-feira, a partir de dados colhidos em campo pela agência e repercutidos pela agência Anadolu. O relatório mostra que cerca de 83.200 famílias no território são hoje sustentadas e chefiadas por mulheres, grupo que absorve de maneira desproporcional o colapso econômico e a repressão armada imposta na região.

O deslocamento forçado atinge 40% dos lares liderados por mulheres, índice que cai para 30% nas casas chefiadas por homens. A perda de moradia empurra essas mães e chefes de família para um cenário de sobrevivência extrema. Sofia Calltorp, chefe de ação humanitária da ONU Mulheres, afirmou que quem assume a gestão do lar de maneira repentina encontra barreiras imediatas para obter sustento, socorro alimentar e itens básicos.

“Mulheres que repentinamente se veem à frente de suas famílias precisam obter renda, garantir assistência e proteger suas famílias em condições extremamente difíceis”, disse Calltorp.

A rotina de cerco militar trava o cotidiano no território. Atualmente, a ONU Mulheres contabiliza 925 obstáculos de circulação espalhados pela Cisjordânia, entre postos de controle, barreiras em rodovias e valas abertas nas vias — o número mais alto verificado nos últimos 20 anos. O impacto sobre a mobilidade é total: 100% das chefes de família ouvidas disseram evitar deliberadamente esses postos de checagem. Quase nove em cada dez relataram sentir insegurança direta nesses locais, o que bloqueia o acesso rotineiro a comida, emprego, hospitais e auxílio emergencial.

A repressão diária gera medo constante de detenção: 57% das mulheres chefes de família disseram temer ir para a prisão, índice que sobe para 76% entre os homens chefes de família. Além da ameaça de encarceramento, uma em cada cinco mulheres responsáveis pelo lar relatou receio explícito de sofrer violência de gênero.

A fome e a escassez de recursos avançam sobre essas casas. Uma em cada quatro famílias chefiadas por mulheres não recebe nenhum tipo de assistência humanitária internacional ou comunitária. O quadro é ainda mais grave onde vivem parentes com doenças crônicas: mais de 50% desses domicílios acumulam despesas de saúde e remédios sem cobertura financeira, dois terços recorreram a dívidas com empréstimos para comprar o básico e metade já pulou refeições por falta de alimento.

O diagnóstico teve como base uma pesquisa direta com 800 famílias distribuídas pelas 11 províncias da Cisjordânia, realizada entre novembro e dezembro de 2025. Diante dos indicadores de privação alimentar e cerco físico, a ONU Mulheres cobrou o encerramento imediato da violência e das restrições de deslocamento no território, incluindo Jerusalém Oriental, além de socorro urgente e focalizado para os lares conduzidos por mulheres.

A vida na Cisjordânia ocupada é marcada por incursões militares frequentes das forças de ocupação israelenses contra cidades, aldeias rurais e campos de refugiados. As tropas conduzem invasões residenciais violentas, prisões sistemáticas e uso de munição letal, dinâmicas intensificadas com a escalada e a campanha militar na Faixa de Gaza deflagrada em outubro de 2023.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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