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Na Boca Maldita, Lula defende escola integral e mil institutos

Ao lado de Requião Filho, presidente defendeu aliança em torno da saúde e da educação integral para o desenvolvimento do Paraná.

Multidão acompanha comício de Lula na Boca Maldita, no centro da capital paranaense. Foto: Ricardo Stuckert

Curitiba, PR – O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou a universalização da escola em tempo integral e a expansão do ensino técnico e superior como prioridades sociais para um novo mandato, durante comício realizado na manhã deste sábado (12). O ato com Lula em Curitiba reuniu cerca de 15 mil pessoas na Boca Maldita e no calçadão da Rua XV de Novembro, no centro da capital paranaense, onde o candidato detalhou compromissos nas áreas de educação, combate a fraudes financeiras e apoio à chapa de oposição no Paraná.

A acolhida da multidão repetiu o histórico coro de “bom dia, presidente Lula”, o mesmo grito entoado pelas caravanas durante os quase dois anos em que ele esteve detido em Curitiba — processo depois anulado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por nulidade e manipulação de provas. Do caminhão de som, o candidato foi direto nas cobranças sobre as denúncias de patrimônio pessoal: “Eu fiquei 580 dias na cadeia por conta de uma mentira! Estou até agora esperando: cadê a minha chácara e cadê o meu apartamento no Guarujá? Até agora tô esperando”. Ele também lembrou os abusos que enfrentou no cárcere, inclusive a tentativa de isolamento total: “Você viu que a juíza que não quis que eu pegasse um frigobar para colocar na minha cela foi condenada esses dias, foi punida”.

Ao ligar o histórico de Curitiba à eleição paranaense, Lula atacou diretamente o ex-juiz da Lava Jato que hoje disputa o comando do Palácio Iguaçu contra Requião Filho: “Nosso adversário é muito frouxo, nosso adversário é muito mentiroso. E eu sou vítima da mentira dele”. O presidente também cobrou os grandes veículos de comunicação pelo papel que tiveram na cobertura jurídica: “Eu sou vítima da mentira dele, e ele foi alimentado pela imprensa nacional, que quase fez dele um deus. Ou seja, depois ninguém da imprensa tem coragem de pedir desculpa: ‘Desculpa, Lula, eu menti. Desculpa, eu estava mal informado. Não, a imprensa não pede desculpa, ela é infalível”. Sobre outro concorrente estadual, disparou sem citar o nome: “tem um candidato que não vale o que come”.

No plano de governo, a defesa da educação pública foi o compromisso de maior peso social do discurso. O presidente defendeu que a escola de tempo integral deve atender crianças desde os primeiros anos até o fim do ensino médio, funcionando como escudo social nas periferias e bairros operários. “Se a gente deixar um menino ou menina, com 14 ou 15 anos, desistir da escola, a gente estará entregando ao crime organizado, à bandidagem, à prostituição, o futuro dessas pessoas que não tiveram oportunidade. E quem tem que dar oportunidade é o Estado brasileiro”, afirmou.

Ele explicou que a permanência em sala de aula precisa ir além da grade tradicional: “Ficar o dia inteiro na escola vai dar mais aprendizado para vocês; não vai ser só aprender que [Pedro Álvares] Cabral chegou aqui, que 2+2 são 4, que não pode falar ‘menos’ laranja, que é ‘menos’. Vão aprender língua portuguesa, mas vão aprender também arte, cultura, a questão ambiental, a questão do feminicídio, e para dar tranquilidade para a mãe e para o pai saírem para trabalhar sabendo que os meninos estão em uma escola de tempo integral”.

Para evitar o abandono escolar imposto pela necessidade de renda familiar imediata, Lula defendeu a ampliação do programa Pé-de-Meia e garantiu que o foco é atingir a meta de 1 mil institutos federais espalhados pelo país — rede que subiu de 140 para 608 unidades sob gestões petistas, somada à construção de mais de 200 campi universitários em 18 anos. “Investir em um menino, para ele se formar, é o mais barato investimento que se faz, porque o retorno é para o resto da vida, para a família dele e para o Estado brasileiro”.

Ao falar sobre o combate à corrupção no sistema financeiro, o candidato expôs o caso do Banco Master e revelou que procurou ao menos três vezes o presidente do STF, Edson Fachin, exigindo o fim do segredo de Justiça do caso. “Não era possível um cidadão ministro relator soltar matérias pinçadas, que só interessavam a ele. Por isso eu pedi [a Fachin] que liberasse todo o processo para saber quem está por trás disso”, explicou. O presidente relacionou o esquema à gestão de Jair Bolsonaro e ao senador Flávio Bolsonaro (PL), investigado por suspeita de lavagem de dinheiro no financiamento do filme “Dark Horse”: “Em 2019, eles pegaram um agiota e transformaram em banqueiro. Eles criaram um banqueiro e nós prendemos esse banqueiro. Eles abriram um banco, e nós fechamos esse banco. Vamos deixar às claras para ver quem é ladrão e corrupto nesse país. E a família Bolsonaro não escapa. Esse é o ano da verdade vencer a mentira”. Lula também citou o desmonte do rombo contra aposentados do INSS iniciado naquele mesmo governo, que já garantiu a devolução de mais de R$ 3 bilhões descontados indevidamente dos contracheques de idosos.

No palanque do Paraná, Requião Filho discursou sob o lema “um Paraná que cuida”, acompanhado do vice Michele Caputo, do pai e candidato a deputado federal Roberto Requião e da mãe, Maristela Quarenghi. O candidato rebateu a política de encarceramento em massa: “Eles dizem que querem construir penitenciárias; nós queremos o Hospital da Mulher e da Infância. Eles querem a violência; nós queremos o amor, o acolhimento e a empatia.” Lula rejeitou o cálculo político de quem aposta apenas em levar a disputa ao segundo turno e mandou a militância para a rua.

A candidata ao Senado Gleisi Hoffmann apontou que a corrida eleitoral coloca frente a frente a democracia e o autoritarismo, confrontando as pretensões de Sergio Moro de assumir o governo após as ações na Lava Jato. Ao lado dela, Dr. Rosinha convocou os apoiadores para um mutirão direto no domingo (13): “De casa em casa, nós vamos construir a vitória de Lula no primeiro turno. É isso que nós vamos fazer; não vamos ficar olhando resultado de pesquisas”.

Janja Lula da Silva discursou, ressaltando a memória dos 580 dias de cerco e resistência no bairro Santa Cândida: “Aqui eu quero reverenciar todas as pessoas da Vigília Lula Livre, que não saíram do lado do presidente Lula durante aquela prisão injusta. E eu não vou citar aqui o nome do algoz dele; é tudo o que ele quer.” Ela fez um apelo para ampliar as bancadas com mulheres: “A gente tem um parlamento brasileiro com muito pouca representação de mulheres, e somos a maioria da população brasileira.”

A mobilização no centro reuniu trabalhadores rurais e comunidades atingidas por barragens que viajaram horas pelo interior. A agricultora Alessandra Brandt Mariano, acampada pelo MST na comunidade Vilmar da Silva, em Santa Maria do Oeste, saiu de madrugada para estar no comício: “Ele é a favor das nossas lutas. E este é um momento de muita luta. A oposição contra-atacando a gente, mas eu tenho fé de que a gente vai vencer”. Do Sudoeste do Paraná, em Francisco Beltrão, veio Rodrigo Zancanaro, da coordenação do MAB: “A gente sabe que ainda tem bastantes desafios, precisamos avançar em bastantes questões, mas a gente entende que é com o presidente Lula que é possível avançar mais.” A professora universitária aposentada Madselva Feiges defendeu salários dignos e serviços básicos gratuitos: “Defendo as universidades e as escolas públicas, políticas de saúde, políticas de segurança pública, a dignidade do trabalho.”

A parte cultural abriu o ato com a cantora Jay de Oyá e os tambores do bloco Afro Pretinhosidade. Bailarinos apresentaram passos de dança de rua com o jingle eleitoral, enquanto militantes do MST desenrolavam uma bandeira nacional de sete metros que cobriu parte da multidão. O hino nacional foi cantado por Janine Mathias, moradora beneficiada pelo programa Minha Casa, Minha Vida, que traduziu o sentimento de subir no palanque no centro da capital: “Sou mãe, sou artista, sou uma mulher negra em Curitiba. Estar ali representava muitas camadas de liberdade e conquista nesse desafio que é lutar todos os dias pela cultura e por políticas públicas”.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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