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Mulheres sob servidão análoga à escravidão são resgatadas em BH

Uma das vítimas foi mantida por 75 anos sem salário ou convívio social, sendo repassada entre gerações de patrões na capital mineira.

Vítimas foram retiradas da residência e inseridas na rede pública de proteção e assistência social. Foto: Ministério Público do Trabalho/Divulgação

Belo Horizonte, MG – Duas trabalhadoras domésticas, de 90 e 65 anos, foram resgatadas de uma situação análoga à escravidão em uma residência de Belo Horizonte. As vítimas mantinham uma rotina diária e ininterrupta de faxina, compras e preparo de refeições — inclusive aos domingos —, sem receber remuneração salarial, sem acesso a férias ou a quaisquer garantias trabalhistas, além de viverem sob restrições severas ao convívio comunitário.

A operação de resgate aconteceu nesta quarta-feira (2), coordenada em ação conjunta pela Superintendência Regional do Trabalho de Minas Gerais (SRT-MG) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT-MG). As apurações da fiscalização apontam que ambas passaram mais de seis décadas no mesmo imóvel. No caso da idosa de 90 anos, a servidão contínua durou 75 anos: ela ingressou na casa ainda jovem e acabou transferida de uma geração de patrões para outra, tratada como encargo perpétuo da dinâmica doméstica da família.

Durante a inspeção dos agentes federais, os patrões alegaram que mantinham uma “relação familiar” com as duas mulheres. A tese defensiva foi prontamente rejeitada pela SRT-MG, que apontou a inexistência de qualquer paridade ou equilíbrio social. Nenhuma das duas trabalhadoras frequentou a escola, teve acesso a projetos autônomos de vida ou pôde construir laços afetivos externos à casa. A equipe de fiscalização também confirmou a ausência total de direitos patrimoniais ou sucessórios, circunstâncias obrigatórias para comprovar qualquer vínculo real de parentesco.

“Este é um dos trabalhos mais importantes da Superintendência, porque resgata os direitos humanos e a dignidade de pessoas que foram violentadas e maltratadas ao longo de toda uma vida. É inadmissível que, em 2026, a gente ainda conviva com essa prática”, declarou o Superintendente Regional do Trabalho em Minas Gerais, Carlos Calazans.

Com o flagrante consumado, as vítimas deixaram o imóvel e foram integradas à rede pública de proteção e assistência social. Ambas recebem suporte psicológico e acompanhamento socioassistencial para a reconstrução de sua cidadania e a garantia de seus direitos civis.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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