Español Português
AGORA

Grupo judaico assina manifesto pró-Lula na eleição de 2026

Signatários alertam para riscos à democracia após Flávio Bolsonaro prometer ministério ao presidente da Conib, Claudio Lottenberg. (

Mobilização de mais de mil signatários ocorreu após declarações de Flávio Bolsonaro em sabatina. Foto: Reprodução/YouTube

Brasília, DF – Um coletivo de intelectuais, artistas, pesquisadores e ativistas da comunidade judaica brasileira lançou um manifesto pró-Lula em apoio formal à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de outubro de 2026. A petição pública, divulgada no sábado (29/08), superou a marca de mil assinaturas até a manhã desta segunda-feira (31/08) e continua aberta para novas adesões. O ato político foi precipitado após o principal concorrente de Lula na disputa, o senador de extrema direita Flávio Bolsonaro (PL), prometer publicamente nomear o médico Claudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), como seu ministro da Saúde caso vença o pleito.

No documento, os signatários afirmam que tomam posição diante da repetição de ameaças contra o regime representativo brasileiro. “Diante, mais uma vez, da ameaça à frágil democracia que construímos no Brasil, nós, judias e judeus, nos manifestamos publicamente em apoio à chapa Lula e Alckmin nas eleições de 2026”, registra o texto de abertura.

Os apoiadores sustentam que a decisão responde ao avanço de manifestações violentas na esfera institucional. “Fazemos essa escolha face a uma sociedade em que discursos autoritários, inconstitucionais e de ameaça aos direitos humanos voltam a ocupar o espaço público como se fossem propostas políticas legítimas. Não podemos normalizar discursos como ‘polícia atira para matar’, nem propostas de regimes de exceção, perseguição a grupos sociais e retirada de direitos sendo defendidas em rede pública como parte natural do debate democrático”, declaram.

O texto enfatiza que a convivência política exige limites contra projetos que pregam a destruição de opositores: “Uma democracia não pode tratar como apenas mais uma opinião aquilo que ameaça a própria democracia, transforma adversários em inimigos e faz da violência um projeto político”.

Entre as personalidades que assinam o manifesto estão o ex-ministro Carlos Minc Baumfeld, o economista e ex-diretor da ANP David Zylbersztajn, o músico e maestro Jaques Morelenbaum, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, o professor e historiador Michel Gherman, a escritora e psiquiatra Natalia Timerman, a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik e a escritora Tatiana Salem Levy.

Reação à indicação de Lottenberg

Segundo informações divulgadas pela coluna de Mônica Bergamo no jornal Folha de S.Paulo, os organizadores planejavam apresentar a manifestação pública em uma fase mais avançada do calendário eleitoral. O cronograma foi antecipado após as sabatinas presidenciais transmitidas pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, na semana anterior.

O estopim para a divulgação imediata foi o anúncio de Flávio Bolsonaro (PL), que escalou o presidente da Conib para compor seu ministério na tentativa de atrair pontes com o setor de saúde suplementar e a comunidade judaica organizada. Até o momento, Claudio Lottenberg não se pronunciou de maneira pública para confirmar se aceitaria o convite nem para rejeitar a declaração do senador do PL.

Íntegra do documento

“Diante, mais uma vez, da ameaça à frágil democracia que construímos no Brasil, nós, judias e judeus, nos manifestamos publicamente em apoio à chapa Lula e Alckmin nas eleições de 2026. Fazemos essa escolha face a uma sociedade em que discursos autoritários, inconstitucionais e de ameaça aos direitos humanos voltam a ocupar o espaço público como se fossem propostas políticas legítimas.

Não podemos normalizar discursos como “polícia atira para matar”, nem propostas de regimes de exceção, perseguição a grupos sociais e retirada de direitos sendo defendidas em rede pública como parte natural do debate democrático. Uma democracia não pode tratar como apenas mais uma opinião aquilo que ameaça a própria democracia, transforma adversários em inimigos e faz da violência um projeto político.

Assinamos este manifesto também em lembrança de nossas histórias. Sabemos o que significa uma sociedade aceitar pouco a pouco o autoritarismo, a perseguição e a construção de grupos humanos como inimigos. Por isso, nossa memória nos convoca à defesa dos direitos humanos, das lutas sociais, do SUS, da igualdade racial, da justiça social e de todas as conquistas democráticas que permitem que diferentes grupos lutem por seus direitos.

Nosso apoio a Lula e Alckmin não significa acreditar que a democracia brasileira esteja pronta, nem que todas as transformações que desejamos estejam representadas nessa chapa. Significa reconhecer que há uma diferença fundamental entre lutar para ampliar direitos dentro de uma democracia e permitir que avancem projetos que ameaçam as próprias condições dessa luta. Defendemos uma sociedade em que nossas diferenças não sejam transformadas em ódio, perseguição ou inimigos a serem eliminados. Em 2026, estaremos com Lula e Alckmin em defesa da democracia e da possibilidade de continuarmos lutando por ela.”

SERVIÇO:

  • Adesão ao manifesto: O abaixo-assinado digital segue aberto para coleta contínua de assinaturas de integrantes da comunidade judaica brasileira e apoiadores por meio de petição pública organizada pelos signatários originários.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

Receba notícias no WhatsApp do Fronteira LivreReceba notícias no WhatsApp do Fronteira Livre

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *