Santiago (Chile) – Quatro décadas após o golpe militar que mergulhou o Chile em uma das mais violentas ditaduras da América Latina, uma exposição no Museu da Memória e dos Direitos Humanos ajuda a reconstruir a história de uma rede repressiva que ultrapassou fronteiras nacionais para perseguir opositores políticos em todo o continente.
Intitulada Sombra do Condor, a mostra apresenta o resultado de dez anos de pesquisa do fotojornalista português João Pina sobre a Operação Condor, mecanismo de cooperação entre os regimes militares da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai durante as décadas de 1970 e 1980.
Ao longo da investigação, Pina percorreu diferentes países da América do Sul, entrevistou sobreviventes, consultou processos judiciais e visitou antigos centros de detenção, tortura e desaparecimento forçado. O trabalho reúne imagens produzidas em locais marcados pela repressão política, como o centro de tortura Londres 38, em Santiago, prisões uruguaias e áreas utilizadas para ocultação de vítimas da violência de Estado.
Mais do que registrar espaços físicos, a exposição busca revelar como as ditaduras transformaram a perseguição política em uma operação continental. Formalizada em Santiago em novembro de 1975, a Operação Condor permitiu a troca de informações entre serviços de inteligência, sequestros transnacionais, detenções clandestinas e assassinatos de opositores que buscavam refúgio em países vizinhos.
Para João Pina, nascido em Portugal após o fim do regime salazarista, a pesquisa também representa um exercício de preservação da memória histórica.
“Minha geração tem a distância necessária para investigar esses acontecimentos, mas também a responsabilidade de compreender como eles marcaram a vida de milhões de pessoas”, afirmou.
Entre os registros expostos estão retratos de sobreviventes nos locais onde estiveram presos e imagens que evidenciam as marcas deixadas pela repressão décadas depois do fim dos regimes militares. Uma das fotografias mais simbólicas mostra uma aeronave utilizada nos chamados “voos da morte” da ditadura argentina, atualmente deslocada de seu contexto original e incorporada ao cotidiano urbano.
A exposição é acompanhada pelo lançamento do livro Condor, que reúne fotografias, documentos e relatos coletados durante a pesquisa. A publicação conta com textos do jornalista Jon Lee Anderson e do jurista espanhol Baltasar Garzón, conhecido internacionalmente por sua atuação em processos relacionados a crimes contra a humanidade.
Ao revisitar a Operação Condor, a mostra reforça a importância da memória, da verdade e da preservação dos registros históricos sobre um período em que o terrorismo de Estado se articulou em escala continental para eliminar adversários políticos e sufocar movimentos democráticos na América Latina.
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