Brasília, DF – O advogado Willer Tomaz, operador jurídico e amigo pessoal do senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL), deixou o país rumo a Miami às vésperas do segundo turno das eleições. A viagem acendeu o alerta na Polícia Federal, que apura um esquema de lavagem de dinheiro que conecta diretamente as contas do jurista às finanças do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Pessoas próximas a Tomaz admitem que o jurista condicionou sua volta ao Brasil ao resultado eleitoral deste domingo (25). A estadia na Flórida só termina se Flávio derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cenário no qual o aliado passaria a contar com a blindagem política do Palácio do Planalto contra ordens de prisão ou buscas.
Embora não haja mandado de retenção de passaporte em aberto, investigadores veem na saída preventiva um movimento calculado para escapar de medidas cautelares iminentes. Questionado pela imprensa, Tomaz confirmou a viagem com a família e tentou desqualificar a apuração:
“Especular, sem fundamento, sobre eventuais medidas cautelares é fofoca de mau gosto, destinada a fabricar fatos com fins político-eleitorais.”
O cerco ao núcleo financeiro de Flávio Bolsonaro se fechou no dia 8 de outubro, quando a PF enviou ao Supremo Tribunal Federal novo inquérito sobre repasses suspeitos entre os dois. Sorteado relator do processo, o ministro Alexandre de Moraes passou a analisar transações bancárias e patrimoniais que a polícia suspeita servirem para disfarçar repasses ilegais.
O histórico de Tomaz com o dinheiro público também cruza a Operação Sem Desconto, que desarticulou retenções fraudulentas nos contracheques de aposentados e pensionistas do INSS. O advogado alega que não participou de desvios contra segurados e sustenta que sua menção nos autos se restringe a uma disputa imobiliária.
O controle sobre jogos de azar online é outra frente das apurações federais. Tomaz movimentou R$ 4,8 milhões na plataforma Bet7k — operada pela Ana Gaming, investigada na Operação Narco Bet por lavar dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Registros do Ministério da Fazenda confirmam que o advogado depositou R$ 1,3 milhão no sistema, apostou R$ 4,3 milhões e sacou R$ 426 mil. O mesmo padrão de transferências atípicas foi detectado na Blaze. A PF apura se os sites funcionaram como canal de blindagem para legalizar recursos ilícitos da rede política do parlamentar.
A defesa do jurista nega vínculos com o crime organizado, diz que as apostas foram feitas com recursos próprios declarados à Receita Federal e argumenta que condutas das empresas não atingem seus clientes.
O poder de influência de Tomaz alcançou o Superior Tribunal de Justiça na Operação Linceu, deflagrada em 19 de outubro. Agentes federais cumpriram buscas contra o ex-secretário de Tecnologia do tribunal, Humberto Fontoura Pradera, acusado de vender acesso a decisões confidenciais e minutas de votos antes da publicação oficial.
A PF apura crimes de violação de sigilo, peculato digital, corrupção e lavagem de capitais. O jurista nega ter comprado vantagens ou interferido em julgamentos:
“As insinuações são falsas, configuram desinformação e revelam desconhecimento elementar, ou deliberada distorção, do funcionamento dos tribunais.”
A rota de fuga temporária expõe as engrenagens de poder que cercam a candidatura do PL: um aparato de relações com tribunais superiores, transações sob a mira da PF e a expectativa de que o voto nas urnas sirva de salvo-conduto judicial para o grupo político.



Deixe um comentário