São Paulo, SP – Há documentários que preservam a memória. Vlado – 30 Anos Depois faz outra coisa: transforma memória em prova. Dirigido por João Batista de Andrade e lançado em 2005, o filme reconstitui o assassinato de Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, torturado e morto em 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI, o braço da repressão política da ditadura militar.
A produção reúne depoimentos de jornalistas como Elio Gaspari, Mino Carta, Fernando Morais, Paulo Markun e George Duque Estrada, além da viúva Clarice Herzog e do irmão Ivo Herzog. O material não se limita a homenagear a vítima. Ele desmonta a versão oficial de suicídio que o regime tentou impor, cruzando testemunhos e evidências que apontam para o assassinato sob custódia do Exército.
A força do longa está em não separar a trajetória de Vlado do aparelho que o eliminou. Batista de Andrade reconstitui sua carreira e sua militância e, ao mesmo tempo, retrata o clima de censura e vigilância que o regime impôs nos anos 1970. A história pessoal e a política são a mesma coisa.
Vlado – 30 Anos Depois funciona menos como homenagem do que como documento de acusação. Não porque repete a indignação, mas porque reúne as peças que a ditadura tentou esconder: lesões, contradições no laudo oficial, testemunhos de sobreviventes, o silêncio das instituições que colaboraram. O filme devolve ao debate público uma verdade que nunca deveria ter saído de lá.
A obra segue necessária. Não como peça de arquivo, mas como lembrete de que censura e violência de Estado não morrem: mudam de forma.




















