Buenos Aires, Argentina – A confirmação da viagem do papa Leão XIV à Argentina, prevista entre 8 e 11 de novembro de 2026, abriu uma crise de bastidores entre o governo de Javier Milei e a cúpula da Igreja Católica. O atrito envolve a disputa pelo controle dos atos públicos, o financiamento da infraestrutura e o temor da Casa Rosada diante de discursos voltados à justiça social em meio à crise socioeconômica.
Desde a posse presidencial, Milei rompeu a tradição diplomática do país ao se recusar a receber os bispos em audiência oficial. O distanciamento aumentou após atritos diretos com o ministro das Relações Exteriores e Culto, Pablo Quirno, que tentou capitalizar politicamente a organização da viagem. Cobrado por representantes do episcopado sobre a ausência de diálogo com a presidência, Quirino rebateu, dizendo que o motivo eram as críticas da Igreja ao plano econômico libertário.
Diante da paralisia na interlocução formal, o episcopado enviou um ultimato ao Executivo. Para evitar o colapso das negociações, a secretária-geral da Presidência, Karina Milei, interveio, afastou o chanceler das tratativas e assumiu pessoalmente os contatos com a hierarquia eclesiástica. A secretária delegou a montagem executiva dos atos estatais à assessora Mara Gorini, que contratou a produtora Showtec.
Disputa entre ruas abertas e recintos fechados
O foco do impasse reside no formato dos encontros. A gestão libertária tentou restringir as celebrações a estádios fechados ou auditórios com capacidade controlada, visando conter manifestações públicas e blindar a narrativa oficial. Em contrapartida, a Conferência Episcopal Argentina e os enviados da Santa Sé sustentam a realização de atos abertos e de massa. A previsão é de que cerca de 5 milhões de pessoas se mobilizem durante os três dias de permanência do pontífice no país.
Após reuniões convocadas por Karina Milei e pelo Ministério da Segurança Nacional — fato que forçou o governo nacional a sentar-se à mesma mesa que a gestão opositora da província de Buenos Aires —, o Vaticano manteve os pontos centrais ao ar livre:
- Buenos Aires: Celebração central no Monumento aos Espanhóis, em Palermo, e possível concentração jovem na Avenida 9 de Julio, além de ato institucional no auditório Baleia Azul, no Centro Cultural Kirchner (CCK);
- Luján: Grande missa campal na Basílica de Nossa Senhora de Luján;
- Córdoba: Encontro de massas na fábrica militar de aviões (FADEA);
- Capital: Homenagem ao papa Francisco na Catedral Metropolitana, com fiéis ocupando a Praça de Maio, e debate com sindicatos, empresários e movimentos sociais na Universidade Católica Argentina (UCA), em Puerto Madero.
Pontos sensíveis e desgaste social
A Casa Rosada manifesta apreensão com os pronunciamentos de Robert Prevost (Leão XIV). O presidente da Conferência Episcopal, dom Marcelo Colombo, afirmou após encontro em Roma que a jornada terá “implicações para a vida social”. A declaração foi recebida no palácio presidencial como um sinal de alerta contra o desmonte das redes de proteção social e as teses libertárias que rejeitam a justiça social.
Dois locais escolhidos pelo Vaticano tocam em feridas políticas diretas do governo:
- Cottolengo Don Orione (Claypole): A instituição atende quase 400 pessoas com deficiência. A ida papal ocorre no momento em que a Casa Rosada enfrenta desgaste pelo corte orçamentário no setor, pela denúncia de propina na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS) e pelas suspeitas sobre a retenção de comissões envolvendo assessores governamentais, enquanto o Congresso tenta prorrogar a emergência da área.
- Prisão de Devoto: A inspeção pastoral à unidade penitenciária segue a linha pastoral mantida por Leão XIV em penitenciárias de Barcelona e da Guiné Equatorial, confrontando a pauta de endurecimento penal do Executivo.
No plano institucional, o único contato direto previsto entre Milei e o papa deve ocorrer no domingo de desembarque, na Casa Rosada. A comitiva pontifícia também deve quebrar o isolamento imposto pelo presidente à sua vice, Victoria Villarruel, que deve comparecer às cerimônias por convite exclusivo da Santa Sé, fora do controle da presidência.
Divisão de contas e falta de recursos
A divisão orçamentária expôs novos atritos sob o lema oficial de que “não há dinheiro”. Ficou acordado que o governo federal fornecerá a escolta das forças federais — chefiada pela ministra Alejandra Monteoliva —, o transporte aéreo em aeronave da Aerolíneas Argentinas para a comitiva de 85 pessoas entre Montevidéu, Buenos Aires, Córdoba e Lima, além de deslocamentos terrestres. O pontífice ficará alojado na Nunciatura Apostólica, no bairro da Recoleta.
Já a Igreja argentina assumirá os custos logísticos dos palcos, estruturas de áudio, iluminação e a construção de um papamóvel nacional. Os bispos alertam que os cofres diocesanos não suportam o volume exigido e recorreram a uma coleta extraordinária em todas as paróquias do país, cujo montante preliminar ficou muito abaixo do necessário. A delegação de segurança do Vaticano finaliza a inspeção dos locais para homologar o roteiro em meados de setembro.
Serviço:
- Período da visita: 8 a 11 de novembro de 2026.
- Cidades confirmadas: Cidade Autônoma de Buenos Aires, Luján, Claypole e Córdoba.
- Principais concentrações populares: Monumento aos Espanhóis (Palermo), Basílica de Luján e fábrica da FADEA (Córdoba).
- Atos sociais e institucionais: Cottolengo Don Orione de Claypole, Prisão de Devoto, Catedral Metropolitana e Centro Cultural Kirchner (CCK).
- Hospedagem papal: Nunciatura Apostólica (Recoleta, Buenos Aires).



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