Curitiba (PR) — O aumento da violência contra crianças e adolescentes voltou ao centro do debate público no Paraná e expôs uma realidade cada vez mais alarmante dentro das famílias brasileiras. Durante sessão plenária da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), realizada nesta segunda-feira (18), a deputada estadual Luciana Rafagnin (PT) denunciou o crescimento dos casos de abuso sexual e maus-tratos contra crianças no Estado e cobrou fortalecimento urgente das políticas públicas de proteção à infância.
O pronunciamento ocorreu no Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e teve como base dados divulgados pelo Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, referência nacional no atendimento pediátrico. Somente em 2025, a instituição registrou 637 atendimentos envolvendo suspeitas de violência contra bebês, crianças e adolescentes. Em 64% dos casos, houve indícios de violência sexual.
Os dados revelam um cenário ainda mais grave quando observada a idade das vítimas. A maior parte das crianças atendidas tinha até seis anos de idade e uma em cada três possuía até três anos, mostrando que a violência atinge justamente quem ainda sequer consegue compreender plenamente o que está acontecendo ou pedir ajuda.
“Estamos falando de crianças muito pequenas. A maioria das vítimas tem até 6 anos de idade e uma em cada três tinha até 3 anos. São crianças que deveriam estar protegidas, acolhidas e vivendo sua infância, mas acabam encontrando violência justamente dentro de casa”, afirmou Luciana Rafagnin.
Outro dado que chamou atenção durante o debate é que 72% das agressões ocorreram dentro do ambiente familiar. A parlamentar destacou que a violência doméstica contra crianças permanece sendo uma das formas mais difíceis de enfrentamento, justamente porque acontece em espaços que deveriam representar acolhimento, cuidado e segurança.
O avanço desses casos também reacende discussões sobre a fragilidade das redes públicas de proteção social em meio ao crescimento da desigualdade, da vulnerabilidade econômica e da sobrecarga enfrentada por conselhos tutelares, unidades de saúde e equipes de assistência social em diferentes regiões do país. Especialistas alertam que boa parte dos casos sequer chega aos órgãos públicos, mantendo milhares de crianças invisíveis dentro de ciclos permanentes de violência.
“O lugar que deveria proteger é, muitas vezes, o lugar da violência. Isso não pode ser tratado como uma estatística fria. É uma tragédia social que exige resposta do poder público e de toda a sociedade”, declarou a deputada.
Durante o pronunciamento, Luciana Rafagnin mencionou casos extremos atendidos pelo Hospital Pequeno Príncipe, incluindo um bebê de apenas dez dias internado com múltiplas lesões físicas e uma criança de seis meses com sinais de abuso sexual. Situações que, segundo profissionais da área da infância, revelam o aprofundamento de uma crise social atravessada pela ausência de acompanhamento contínuo, vulnerabilidade familiar e falhas históricas nas estruturas de proteção infantil.
Rede de proteção enfrenta desafios
A deputada defendeu o fortalecimento da rede pública de atendimento e afirmou que o enfrentamento da violência infantil exige integração permanente entre escolas, saúde, assistência social, Justiça e políticas de acolhimento.
“A violência contra crianças é silenciosa e, muitas vezes, invisível. Precisamos romper o silêncio, fortalecer as redes de proteção, ampliar as políticas públicas e garantir atendimento especializado às vítimas”, afirmou.
Além da ampliação do atendimento especializado, a parlamentar defendeu campanhas permanentes de conscientização, formação de profissionais e mecanismos mais rápidos de denúncia e acolhimento às famílias em situação de risco.
Violência infantil exige resposta coletiva
Ao encerrar o pronunciamento, Luciana Rafagnin reforçou que o combate à violência contra crianças não pode ser tratado apenas como responsabilidade individual das famílias, mas como compromisso coletivo da sociedade e do Estado.
“É dever das famílias, das escolas, dos profissionais de saúde, da assistência social, da Justiça, dos governos e de toda a sociedade proteger nossas crianças. Não existe neutralidade diante da violência infantil”, afirmou.
Casos de violência contra crianças e adolescentes podem ser denunciados anonimamente pelo Disque 100. No Paraná, também é possível registrar denúncias pelo telefone 181 e, em Curitiba, pelo canal 156.

















