Bogotá (Colômbia) — A morte de Totó La Momposina, aos 85 anos, encerra um dos capítulos mais incríveis da cultura popular latino-americana, mas amplia ainda mais a dimensão histórica de sua obra. Cantora, bailarina e guardiã das tradições afro-caribenhas da Colômbia, Totó transformou o tambor em instrumento de memória, identidade e resistência social em um continente marcado pela desigualdade, pelo racismo estrutural e pela tentativa permanente de apagar culturas populares e negras.
Nascida Sonia Bazanta Vides, em uma região ribeirinha do Caribe colombiano historicamente marginalizada pelas elites políticas e econômicas, Totó carregou durante mais de seis décadas os sons da cumbia, do bullerengue, do mapalé e do porro para os maiores palcos do planeta. Sua trajetória rompeu fronteiras sem nunca abandonar o território de onde vinha: a Colômbia popular, mestiça, negra, indígena e camponesa.
Enquanto parte da indústria cultural latino-americana buscava copiar referências do Norte Global, Totó La Momposina fez exatamente o contrário. Sua revolução artística foi afirmar que o futuro também podia nascer da ancestralidade. Seus tambores, suas danças e sua voz rouca carregavam marcas profundas da resistência afrodescendente construída às margens dos grandes centros de poder.
Mais do que música, Totó transformou cultura em posicionamento político. Sua presença internacional nunca foi neutra. Em cada apresentação, ela levava consigo comunidades historicamente invisibilizadas pelo colonialismo, pela escravidão e pela exclusão social que atravessam a história da América Latina até hoje.
Sua arte ajudou a devolver dignidade e orgulho à identidade negra e caribenha em um continente onde a cultura popular foi frequentemente tratada como folclore menor pelas elites urbanas e econômicas.
A voz da América Latina profunda
Totó La Momposina já era uma das maiores referências da música popular latino-americana muito antes de alcançar reconhecimento global ao lado de Gabriel García Márquez na cerimônia do Prêmio Nobel de Literatura, na Suécia. Sua trajetória internacional foi construída ao longo de décadas, levando os ritmos ancestrais do Caribe colombiano para festivais, teatros e encontros culturais em diversos continentes. Ainda assim, para as novas gerações, uma de suas aparições mais simbólicas aconteceu anos depois, na histórica canção “Latinoamérica”, do grupo porto-riquenho Calle 13.
Na música, Totó empresta sua voz ao refrão que se transformou em um dos maiores manifestos culturais e políticos do continente latino-americano:
“Tú no puedes comprar al viento. Tú no puedes comprar al sol
Tú no puedes comprar la lluvia. Tú no puedes comprar el calor”
Os versos sintetizam justamente a dimensão simbólica da obra construída por Totó: a defesa do território, da cultura popular, da natureza e da identidade dos povos latino-americanos diante da lógica de mercantilização da vida.
Mulheres, ancestralidade e resistência
A importância de Totó La Momposina também atravessa o papel das mulheres negras na preservação cultural do continente. Em uma indústria historicamente dominada por homens e marcada por padrões eurocêntricos, ela abriu caminhos para gerações de cantaoras, percussionistas e artistas populares da América Latina.
Sua trajetória mostrou que o protagonismo feminino negro não nasce apenas nos espaços institucionais, mas também nos quilombos culturais, nos tambores, nos cantos comunitários e na transmissão oral das tradições populares.
Totó representava uma memória viva das mulheres que sustentaram culturas inteiras mesmo diante da pobreza, da violência e da exclusão histórica. Sua voz carregava não apenas música, mas também espiritualidade, resistência coletiva e pertencimento territorial.
Ao longo da carreira, Totó La Momposina demonstrou que cultura popular nunca foi apenas entretenimento. Em países profundamente marcados pela concentração de renda e pelo racismo estrutural, preservar a memória negra e indígena também se tornou um ato político.
Sua obra dialogava diretamente com a ideia de que os povos latino-americanos não podem existir apenas como exportadores de matéria-prima ou consumidores de modelos culturais estrangeiros. O tambor caribenho defendido por Totó sempre falou sobre autonomia, identidade e sobrevivência coletiva.
Mesmo após sua morte, a cantora segue como símbolo de um continente que resiste através da música, da memória e da ancestralidade.
Enquanto houver um tambor ecoando nos bairros populares, nos quilombos, nas periferias e nas margens dos rios da América Latina, Totó La Momposina continuará viva.
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