Rio de Janeiro (RJ) — O jogo do bicho nasceu no Rio de Janeiro ainda no século XIX. Sobreviveu a mudanças de governo, operações policiais, transformações urbanas e sucessivas tentativas de combate à contravenção. Mais de um século depois, continua ocupando um espaço singular no imaginário brasileiro, transitando entre a ilegalidade, a cultura popular e estruturas de poder que marcaram a história do país.
É desse universo que parte “Os Donos do Jogo”, série brasileira disponível na Netflix que transforma uma das contravenções mais conhecidas do Brasil em uma narrativa sobre influência, herança, ambição e disputa por poder.
A trama acompanha quatro famílias — Moraes, Guerra, Fernandez e Saad — que controlam territórios e negócios ligados ao jogo do bicho no Rio de Janeiro. Durante anos, esses grupos construíram alianças, estabeleceram fronteiras e consolidaram uma rede de interesses capaz de atravessar diferentes setores da vida carioca. O equilíbrio, porém, começa a ruir quando surge um novo personagem disposto a desafiar as dinastias que dominam esse universo.
Interpretado por André Lamoglia, Profeta representa a ruptura em um ambiente onde tradição e poder caminham lado a lado. Sua ascensão desencadeia conflitos que vão muito além das apostas clandestinas e colocam em disputa o controle de um império sustentado por dinheiro, lealdades e influência.

Ao escolher o jogo do bicho como cenário, a série também resgata uma parte da história urbana brasileira. Ao longo das décadas, a atividade deixou de ser apenas uma forma de aposta popular para se transformar em uma estrutura paralela de poder, frequentemente associada a relações políticas, disputas territoriais e mecanismos de influência econômica.
Mais do que retratar organizações criminosas, “Os Donos do Jogo” concentra seu olhar nas relações humanas que sustentam essas estruturas. Pais e filhos, sucessores e herdeiros, aliados e adversários convivem em um ambiente onde a permanência do poder depende tanto da força quanto da capacidade de preservar alianças e administrar conflitos internos.
Essa escolha aproxima a produção dos grandes dramas sobre sucessão e disputa familiar, mas sem abandonar referências profundamente brasileiras. O Rio de Janeiro apresentado pela série é marcado por contrastes, tensões e desigualdades que ajudam a explicar a permanência de estruturas paralelas capazes de sobreviver por gerações.
Com direção de Heitor Dhalia, Rafael Miranda Fejes e Matias Mariani, a produção reúne nomes como Chico Díaz, Juliana Paes, Giullia Buscaccio, Mel Maia, Xamã e Otávio Muller.
Ao revisitar o universo do jogo do bicho, a série não oferece apenas uma história sobre crime ou contravenção. Também lança luz sobre as relações entre poder, influência e legado que ajudaram a moldar parte da história brasileira. Em um país onde as fronteiras entre o oficial e o informal frequentemente se cruzam, a disputa retratada na ficção dialoga com questões que continuam presentes muito além das telas.
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