CURITIBA, PR — Lideranças do agronegócio e órgãos do Governo do Estado articularam, nesta quarta-feira (29), a criação de uma estrutura pública para impulsionar a produção animal e combater o abate clandestino, visando consolidar um novo projeto de lei no Paraná. A proposta de instituição da Câmara Setorial da Ovinocultura foi debatida durante a primeira reunião do Grupo de Trabalho da Ovinocultura do Sistema FAEP, com o objetivo de reunir todos os elos da cadeia produtiva, diagnosticar gargalos históricos, organizar o setor, fortalecer a sanidade e tirar criadores da informalidade.
A iniciativa reúne o Sistema FAEP, o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), a Associação Paranaense de Criadores de Ovinos (Ovinopar), a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a CooperAliança, o Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar) e a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab).
O presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, destacou a oportunidade do debate diante do cenário econômico atual. “O momento é oportuno. Temos observado crescimento da ovinocultura, aumento no preço pago pelos cordeiros e novos produtores entrando no mercado. Ao mesmo tempo, ainda dependemos da entrada de animais de outros Estados para atender à demanda”, afirmou. Meneguette ressaltou ainda a urgência de medidas estruturantes: “Precisamos de ações que permitam aumentar a produção interna, melhorar o bem-estar animal, a sanidade, a qualidade dos produtos e incentive a formalização dos produtores”. Como apoio direto aos produtores locais, a entidade mantém turmas de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) nos municípios de Campo do Tenente, Palmas, Rio Azul e Guarapuava.
De acordo com a Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do IBGE, o Paraná conta com um rebanho de 516 mil ovinos — equivalente a 2,4% do total nacional, o que coloca o estado na oitava posição do ranking. O município de Guarapuava lidera o plantel paranaense, somando 18,7 mil cabeças.
Desafios para impulsionar projeto de lei no Paraná
O avanço na procura por carne ovina escancarou um gargalo estrutural: a disparidade entre a demanda em alta e a dependência de animais trazidos de fora do estado. O técnico Fábio Mezzadri, do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP, pontuou que o foco central deve ser a regularização dos plantéis. “É importante trazer o produtor para o mercado formal, mostrando que a ovinocultura é rentável e economicamente viável”, disse.
Na mesma linha, o pesquisador do IDR-Paraná, João Ari Hill, defendeu o mapeamento preciso das propriedades ruralistas. “À medida que tivermos iniciativas para trazer esse produtor para a formalidade, a tendência é reduzir o problema. A atividade evoluiu muito nos últimos anos, mas ainda precisamos conhecer melhor a realidade da ovinocultura para definir onde e como agir”, explicou. Hill revelou dados preocupantes de mercado: em 2025, o Paraná importou mais de 238 toneladas de carne de ovinos e caprinos, demonstrando o potencial reprimido que pode ser absorvido pela produção paranaense.
A escassez de matéria-prima afeta diretamente as indústrias e cooperativas do setor. A vice-presidente da CooperAliança, Adriane Thives Araújo Azevedo, citou as dificuldades operacionais das plantas de abate. “Hoje abatemos cerca de 10 mil cordeiros por ano e dependemos da entrada de animais provenientes de outros Estados”, pontuou.
Defesa sanitária e rastreabilidade
Na frente da defesa agropecuária, a subnotificação de rebanhos e doenças representa um entrave que compromete a saúde pública e a segurança alimentar. A chefe da Divisão de Sanidade de Caprinos e Ovinos da Adapar, Patrícia Muzolon, alertou para o subregistro do setor. “Estimamos que o rebanho paranaense seja muito maior do que o registrado oficialmente, porque muitos produtores mantêm a atividade em caráter doméstico. A transparência sanitária é fundamental para o desenvolvimento da cadeia”, ressaltou.
Como encaminhamento prático para desburocratizar e incentivar a regularização, a Adapar informou que está desenvolvendo um novo sistema para emissão da Guia de Trânsito Animal (GTA), ferramenta que simplificará a movimentação de ovinos no estado e estimulará a formalização do pequeno e médio produtor.




















