Brasília, DF – O Partido Liberal (PL), legenda de Flávio Bolsonaro, está no topo da lista dos partidos com mais candidatos autuados por crimes e infrações ambientais nas eleições de 2026. É o que revela o cruzamento de dados realizado pela Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA Nacional), que identificou 240 postulantes acumulando 524 autos de infração e um total de R$ 213,5 milhões em multas ambientais aplicadas pelo Ibama e pelo ICMBio. O PL encabeça a contagem absoluta de candidatos autuados e concentra a maior fatia das penalidades federais recentes aplicadas a nomes que disputam o pleito deste ano.
O domínio do PL no topo das autuações é confirmado em diferentes recortes da fiscalização. Dados da Agência Tatu e do Intercept Brasil mostram que 13 candidatos da legenda de Flávio Bolsonaro acumulam cerca de R$ 6 milhões em penalidades nos últimos três anos, respondendo por quase 40% de todas as multas lavradas pelo Ibama contra candidatos em 2026. No levantamento histórico de infrações à flora (2008–2026), que reúne 137 candidatos com R$ 161,5 milhões em autuações, o PL também lidera com folga: são 20 candidatos multados, à frente de MDB (15) e Podemos (13). Além disso, a plataforma Sumaúma revelou que, entre os 75 concorrentes que somam R$ 176 milhões em 200 infrações na Amazônia, a maioria é de apoiadores declarados de Flávio Bolsonaro, que disputa a Presidência e trata a emergência climática com desdém.
O levantamento da ASCEMA expõe um conflito direto de interesses: parte expressiva desses nomes disputa mandatos no Congresso Nacional e nas assembleias estaduais, onde poderão votar o orçamento, alterar normas e enfraquecer os mesmos órgãos que os multaram. Regionalmente, as sanções concentram-se no Norte e no Centro-Oeste, faixas de expansão predatória da agropecuária, do garimpo e da madeira ilegal. O Tocantins reúne o maior número de candidatos autuados (20), enquanto o Pará lidera em número de autos (59). Em montante financeiro, Goiás registra R$ 67,6 milhões e Roraima soma R$ 55,6 milhões.
Por cargo, as disputas para deputado estadual concentram 119 nomes e R$ 129,7 milhões em multas, seguidas pelas cadeiras de deputado federal. Para a ASCEMA, a disputa proporcional atrai figuras com passivos milionários porque atrai menos holofotes que as chapas majoritárias. Outro artifício denunciado pelo estudo está na primeira suplência ao Senado: nove candidatos somam R$ 10,9 milhões em sanções — valor superior ao de todos os titulares juntos —, evidenciando o uso da suplência para abrigar figuras com alto poderio econômico e passivos pesados. Embora o PL lidere em volume de nomes, cifras individuais extremas aparecem abrigadas em legendas menores, como o Mobiliza (R$ 67,1 milhões entre 3 candidatos) e o Democracia Cristã (R$ 54 milhões entre 9 nomes).
O perfil majoritário dos infratores é formado por homens, empresários e fazendeiros do Arco do Desmatamento. Um grupo de apenas 14 concorrentes responde por mais de R$ 100 milhões em autuações aplicadas na última década, cada um devendo no mínimo R$ 1 milhão.
Cristiane Mazzetti, coordenadora da frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, destaca que o histórico de multas é uma informação central para o eleitorado, mesmo que a legislação só preveja inelegibilidade em condenações criminais colegiadas: “Principalmente quando se trata daqueles candidatos à reeleição, integrantes de bancadas e/ou de partidos com histórico recente de desmonte da legislação ambiental — inclusive das salvaguardas que atuam no monitoramento e na fiscalização — e que podem se beneficiar da fragilização do controle desses crimes ambientais”, explicou.
Às vésperas da votação em 4 de outubro, em meio a secas e queimadas severas agravadas pelo El Niño e pelo aquecimento global, a escolha dos representantes do Legislativo definirá a sobrevivência de comunidades inteiras. A jornalista Eliane Brum, da Sumaúma, ressalta a urgência do momento: “Se nós não votarmos bem em 4 de outubro, pode não haver outra chance. Isso não é força de expressão, é real. Vamos entender bem onde estamos no Brasil, porque o futuro bem próximo vai depender da nossa capacidade de virar voto e esclarecer indecisos no tempo que ainda resta antes do primeiro turno. Estamos vivendo um momento assustador, sim, mas não temos o luxo de ficarmos assustadas”.
A pesquisa da ASCEMA Nacional cruzou os números de CPF dos candidatos registrados no TSE com as bases oficiais do Ibama e do ICMBio, descartando penalidades anuladas, infrações de órgãos estaduais e registros ligados a CNPJs corporativos. Wallace Lopes, autor do levantamento, reforça que tornar esses dados públicos assegura o direito da sociedade de saber quem pretende legislar sobre a preservação ambiental no país.
Relatório: conheça os nomes aqui



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