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PISA aponta queda no desempenho educacional na América Latina

Relatório internacional mostra retrocessos em matemática e leitura, aumento das desigualdades e desafios relacionados ao uso de inteligência artificial nas escolas

Foto: Divulgação / oecd.org.

América Latina – Estudantes da América Latina apresentam dificuldades cada vez maiores em leitura e matemática, segundo os resultados mais recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). A avaliação mede, a cada três anos, as habilidades de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências.

O relatório elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que os resultados de aprendizagem estagnaram ou pioraram em diversos países.

“Os resultados da aprendizagem estagnaram ou continuaram piorando em muitos países”, afirma o relatório.

Entre os 13 países da América Latina que participaram da avaliação, nenhum alcançou a média registrada pelos países da OCDE. Ao todo, 760 mil estudantes de diferentes países participaram da avaliação. Em comparação com 2022, três países latino americanos melhoraram os resultados em ciências, três apresentaram queda e seis permaneceram estáveis. Em leitura, nenhum país registrou melhora e seis tiveram resultados inferiores aos da avaliação anterior.

Em matemática, nenhum dos países aumentou a pontuação e cinco registraram queda. Em alguns casos, os resultados ficaram entre os piores desde o início da participação no PISA.

Queda histórica em matemática e leitura

A Argentina apresentou uma das maiores quedas da região em matemática. O país alcançou 367 pontos, 11 a menos que em 2022, registrando seu pior resultado desde que começou a participar do PISA. Apenas 24% dos estudantes argentinos atingiram o nível mínimo de competência em matemática, enquanto a média dos países da OCDE foi de 65%.

O Chile também registrou seu pior resultado desde 2006, quando começou a participar da avaliação. O país obteve 403 pontos, nove a menos que em 2022. No México, a situação foi semelhante. O país alcançou 388 pontos em matemática, seu pior resultado desde 2006. A pontuação ficou apenas três pontos acima da registrada em 2003, quando participou pela primeira vez da avaliação.

Víctor Volman, diretor-executivo da organização Argentinos por la Educación, afirmou que os resultados apontam para uma crise regional no ensino de matemática.

“Os resultados do PISA confirmam que a crise educacional em matemática é um fenômeno regional. Mesmo os países mais bem posicionados da América Latina têm mais da metade de seus estudantes abaixo do nível mínimo de competência. Em outros países, isso chega a 80% dos estudantes”, afirmou.

No México, o professor Marco Antonio Fernández relacionou o desempenho às condições de formação dos professores e à estrutura disponível nas escolas.

“Isso se deve principalmente à questão dos docentes e ao descuido que o Estado mexicano teve ao melhorar sua formação continuada, para garantir que os professores tenham melhores condições de tornar suas aulas mais eficazes e sejam acompanhados por materiais educacionais de qualidade”, afirmou Fernández.

Segundo o pesquisador da Iniciativa de Educação com Equidade e Qualidade da Escola de Governo do Tecnológico de Monterrey, 

“apenas 35% das escolas públicas contam com um computador com acesso à internet”.

Em leitura, Guatemala, Paraguai, Peru, Chile e Uruguai registraram quedas significativas em relação à avaliação anterior.

Source: OECD, PISA 2025 Database, Tables I.B1.2a.36-38. Foto: Reprodução.

Desigualdade entre meninos e meninas

Os resultados também mostram diferenças relacionadas ao gênero e à condição socioeconômica dos estudantes. No México, a diferença de desempenho entre meninos e meninas em ciências aumentou. O país aparece, junto com o Quênia, entre aqueles em que a proporção de meninas que não alcançaram o nível 2 de competência supera a dos meninos por uma diferença entre seis e dez pontos percentuais.

Em matemática, os meninos também tiveram desempenho superior ao das meninas, com diferença de 16 pontos. Em leitura, porém, elas tiveram vantagem de 12 pontos, com 414 pontos contra 402 dos meninos.

Na Colômbia, as meninas superaram os meninos em leitura por 16 pontos. Os meninos, por sua vez, tiveram desempenho superior em ciências e, principalmente, em matemática, com vantagem de 14 pontos. Rodrigo Castañeda Valle, analista de Políticas Públicas da OCDE, relacionou as diferenças aos papéis sociais atribuídos a meninos e meninas.

“Sem dúvida, existe uma questão relacionada aos papéis sociais”, afirmou.

“São modelos transmitidos socialmente. Os meninos geralmente são direcionados para carreiras científicas e de engenharia, enquanto as meninas são direcionadas para as artes”, acrescentou.

As desigualdades também aparecem quando é considerado o nível socioeconômico das famílias. Na Colômbia, estudantes de famílias com maior renda superaram os alunos mais desfavorecidos em 93 pontos na avaliação de ciências. A diferença é equivalente à observada entre os países com os melhores e os piores resultados nessa área.

Em ciências e leitura, apenas 1% dos estudantes colombianos alcançou os níveis 5 ou 6, considerados os mais altos. Na média da OCDE, os índices foram de 7% em ciências e 6% em leitura.

Em matemática, a proporção de estudantes colombianos nos níveis mais altos foi praticamente nula, enquanto a média da OCDE chegou a 8%. Alejandro Gaviria Uribe, ex-ministro da Educação da Colômbia, classificou a situação como uma profunda desigualdade no sistema educacional.

“Na Colômbia existe uma espécie de apartheid educacional”, afirmou.

“As elites do país sabem que não precisam de uma educação pública de boa qualidade porque têm bons colégios privados como alternativa”, acrescentou.

Mais estudantes na escola

Apesar dos resultados negativos, o relatório também destaca a ampliação do acesso à educação secundária em países como Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Peru e México. Segundo a OCDE, esses países conseguiram ampliar a cobertura educacional sem registrar quedas drásticas no desempenho acadêmico.

“A proporção de estudantes com baixo desempenho acadêmico se manteve, apesar de serem sistemas em expansão, ou seja, há cada vez mais jovens que antes não estavam no sistema educacional e que geralmente apresentam grandes lacunas educacionais”, explicou Castañeda.

Especialistas, no entanto, avaliam que a expansão do acesso não foi acompanhada necessariamente pela melhoria da qualidade. Na Colômbia, a educadora Edna Bonilla destacou que o país ampliou o acesso à educação em diferentes níveis, mas ainda enfrenta dificuldades para garantir qualidade e permanência dos estudantes.

“A Colômbia, particularmente, melhorou o acesso à educação em todos os níveis. É muito raro encontrar um dos 1.100 municípios do país sem possibilidade de vaga escolar, mas esquecemos da qualidade educacional”, afirmou.

“Se não melhorarmos a qualidade e a permanência escolar, não fazemos nada”, acrescentou Bonilla.

A educadora também apontou dificuldades para manter os adolescentes na escola.

“Hoje os meninos e meninas ficam entediados na escola, principalmente nos anos finais do ensino médio, e não contamos com estratégias sólidas para combater a evasão”, afirmou.

Para Gaviria, as diferenças entre os resultados da América Latina e a média da OCDE representam uma defasagem significativa.

“Cada 20 pontos correspondem a um ano de educação. Portanto, aqui é como se tivéssemos quatro anos a menos de educação”, alertou.

A OCDE reconhece a necessidade de ampliar os esforços para melhorar as competências adquiridas pelos estudantes em sala de aula.

“Muitos jovens sabem ciência, mas ainda não a utilizam em sua vida cotidiana. Eles não usam, por exemplo, seus conhecimentos de eletricidade para saber se determinados materiais conduzem eletricidade ou não. Esse é o desafio”, afirmou Castañeda.

Inteligência artificial traz novos desafios

O PISA também analisou o impacto das novas tecnologias no processo de aprendizagem, incluindo celulares, tablets e ferramentas de inteligência artificial (IA). Os resultados indicam que a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem, mas também pode prejudicá-la, especialmente quando utilizada de determinadas formas.

O relatório aponta que estudantes que utilizam inteligência artificial para tarefas escolares específicas, como resumir textos, escrever ou realizar pesquisas, apresentam pontuações mais baixas em ciências do que aqueles que não recorrem à ferramenta. Na Colômbia, no Peru, no Uruguai e na Argentina, mais da metade dos estudantes afirmou utilizar inteligência artificial para realizar tarefas escolares.

Além disso, entre 36% e 57% dos estudantes afirmaram que celulares e outros dispositivos eletrônicos provocam distrações durante as aulas. Para Castañeda, ainda não existe uma resposta definitiva sobre como utilizar essas tecnologias de maneira a potencializar o aprendizado.

“Essa é uma das perguntas mais pertinentes atualmente. Os dados do PISA nos mostram esse desafio, mas ainda não nos dão a resposta”, afirmou.

Especialistas defendem a necessidade de estabelecer regras para o uso dos dispositivos eletrônicos e desenvolver uma educação voltada ao uso crítico da inteligência artificial.

“Eu, particularmente, acredito que estamos atrasados na criação de uma boa regulamentação sobre o uso de celulares nas escolas, sobre o acesso às redes sociais por menores de 16 anos e, de maneira geral, sobre o uso da inteligência artificial”, afirmou Bonilla.

Para a educadora, o debate não deve se limitar à adoção ou rejeição da tecnologia.

“A discussão educacional já não pode ser se a inteligência artificial deve ou não ser utilizada. Precisamos ensinar a utilizá-la criticamente, sem substituir a capacidade de ler, escrever, raciocinar e, sobretudo, resolver problemas”, afirmou.

Gaviria também defendeu um uso equilibrado da tecnologia.

“O relatório deixa claro que aqueles que não utilizam a IA estão perdendo alguma coisa, enquanto aqueles que recorrem a ela para tudo estão tendo seu aprendizado afetado. É preciso buscar um ponto de equilíbrio”, concluiu.

Steve Rodríguez

*Steve Rodríguez é repórter do Fronteira Livre, pesquisador e doutorando pela UNILA com formação interdisciplinar em narrativa audiovisual, estudos culturais latino-americanos e práticas pedagógicas anticoloniais. Sua trajetória combina criação artística (teatro, cinema e cultura visual) com reflexão teórica, orientada pela perspectiva dos estudos visuais de Nicholas Mirzoeff.

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