Por Amilton Farias – Opinião
Buenos Aires costuma ser vendida ao mundo como uma cidade europeia fora da Europa. A arquitetura francesa, os cafés antigos, os sobrenomes italianos e a ideia repetida durante décadas de uma Argentina “branca” ajudaram a construir uma narrativa nacional que empurrou para as margens boa parte da própria história do país. Foi assim que povos originários, descendentes africanos, trabalhadores mestiços e culturas populares acabaram muitas vezes apagados do imaginário oficial argentino.
Mas a arte, sobretudo a música, tem o costume de devolver ao povo aquilo que a história institucional tenta esconder.
E talvez seja exatamente aí que Milo J se transforme em um dos fenômenos culturais mais importantes da nova geração latino-americana.
Nascido em Morón, na periferia de Buenos Aires, Camilo Joaquín Villarruel surgiu ainda adolescente dentro do universo do trap argentino. Poderia ter seguido o caminho previsível da indústria musical contemporânea: beats padronizados, estética globalizada e algoritmos ditando comportamento. Mas Milo J decidiu caminhar em outra direção. Em vez de fugir das raízes latino-americanas para parecer universal, escolheu mergulhar nelas.
Seu trabalho virou uma espécie de tensão viva dentro da cultura argentina contemporânea.
Porque Milo J carrega no corpo, na voz, na linguagem e na estética aquilo que durante muito tempo parte da elite cultural argentina tentou negar: a América Latina profunda.
A própria definição que Milo J faz de si talvez seja um dos elementos mais políticos de sua trajetória artística. Em entrevistas e declarações públicas, o cantor passou a se autodenominar “marrom”, transformando a palavra em afirmação estética, social e identitária dentro de uma Argentina historicamente construída sob uma lógica eurocêntrica e branca.
“Eu sou marrom, o disco é marrom, a cor secundária da Argentina é marrom”, afirmou o artista, numa frase que rapidamente ultrapassou o universo musical e passou a circular como símbolo de identificação entre jovens latino-americanos que não se reconhecem na narrativa oficial de seus países.
Na Argentina, o termo “marrom” carrega uma dimensão profundamente política. Durante décadas, a ideia de uma nação “branca e europeia” ajudou a invisibilizar populações indígenas, afrodescendentes, mestiças e trabalhadores pobres vindos do interior do país. Ao reivindicar para si a identidade marrom, Milo J confronta diretamente esse imaginário histórico e recoloca no centro da cultura argentina os rostos e origens que muitas vezes foram tratados como marginais ou inferiores.
Não por acaso, a afirmação provocou desconforto em setores conservadores da sociedade argentina. O termo, usado historicamente de forma pejorativa em determinados contextos urbanos, frequentemente aparecia associado à pobreza, à periferia e ao preconceito racial disfarçado de diferença social. Expressões como “cabecita negra”, muito presentes na história política argentina, revelam justamente esse processo de discriminação contra trabalhadores mestiços e migrantes internos.
Ao transformar “marrom” em orgulho e manifesto cultural, Milo J opera uma inversão simbólica poderosa. Sua música deixa de ser apenas entretenimento e passa a funcionar também como recuperação de memória latino-americana, valorização da mestiçagem e enfrentamento do racismo estrutural ainda presente no continente.
Mais do que uma provocação estética, a identidade marrom defendida pelo cantor aponta para uma América Latina que começa lentamente a reaprender a enxergar a si mesma.
Há algo de simbólico quando um jovem artista periférico argentino, nascido em 2006, passa a dialogar musicalmente com Mercedes Sosa, Silvio Rodríguez, Violeta Parra, Horacio Guarany, Charly García e Luis Alberto Spinetta sem abandonar o urbano, o trap e os códigos de sua geração. Milo não faz folclore nostálgico. Também não abandona a modernidade. O que ele produz é uma costura rara entre passado e futuro.
E isso é profundamente político.
Em tempos em que boa parte da indústria cultural mundial tenta transformar identidades em mercadoria pasteurizada, Milo J reaparece lembrando que cultura não é embalagem: é território, memória e conflito histórico.
Seu álbum La vida era más corta, lançado em setembro de 2025, talvez seja o exemplo mais poderoso desse movimento. O disco mistura trap, tango, folclore, rock, salsa, bossa nova, eletrônica e sonoridades acústicas latino-americanas sem soar artificial. Há bombos legueros convivendo com sintetizadores, milonga atravessando texturas digitais e cantos ancestrais dialogando com a melancolia urbana de uma juventude marcada por crises econômicas, guerras transmitidas em tempo real e ausência de horizonte coletivo.
Milo J parece compreender algo que muitos artistas ainda não perceberam: a juventude latino-americana vive um esgotamento profundo da cultura importada como modelo único de existência.
Talvez por isso sua música provoque tanto impacto.
Ela devolve pertencimento.
Canções como Bajo de la piel carregam não apenas elementos sonoros do folclore argentino, mas também uma espécie de reencontro espiritual com aquilo que a América Latina possui de indígena, mestiço, popular e coletivo. Em El Invisible, ao lado de Cuti e Roberto Carabajal, o jovem artista atravessa gerações e mostra que tradição não precisa ser prisão conservadora — pode ser continuidade, reinvenção e linguagem viva.
Quando utiliza palavras, ritmos e símbolos ligados às culturas populares do continente, Milo J rompe também com uma lógica colonial muito presente nas elites culturais latino-americanas: a ideia de que modernidade só existe quando se imita o Norte Global.
A conexão continental presente na obra de Milo J aparece também no uso de referências brasileiras em suas músicas. Em uma das canções, o cantor utiliza a frase “Eu tava na mata esperando Malunguinho”, evocando uma das figuras mais simbólicas da resistência afro-indígena do Brasil.
Na tradição da Jurema Sagrada, Malunguinho representa força espiritual e memória histórica ligada ao líder quilombola do Catucá, nas matas de Pernambuco. Milo J contou que precisou de autorização espiritual para utilizar o sample ligado à umbanda. “Al final el Santo avaló”, resumiu o artista.
Mais do que estética, a escolha revela um jovem músico argentino conectado às ancestralidades e espiritualidades populares da América Latina.
A ascensão de Milo J não fala apenas de música. Ela fala de uma América Latina que tenta reaparecer dentro de si mesma, recuperar vozes silenciadas, raízes negras, indígenas e periféricas, sotaques e formas próprias de olhar o mundo.
Existe uma dimensão quase amefricana em sua obra — no sentido proposto por Lélia Gonzalez — porque Milo J não se encaixa completamente nem na caricatura europeizada da Argentina tradicional nem no estereótipo comercial imposto pela indústria global do entretenimento. Ele habita esse território híbrido, mestiço, urbano e latino-americano que atravessa Buenos Aires, Bogotá, Recife, Havana, Santiago, Assunção e Cidade do México ao mesmo tempo.
Seu sucesso também ajuda a desmontar outra mentira histórica: a de que juventude periférica produz apenas alienação.
Milo J surge justamente como o contrário disso. Um artista capaz de olhar para a própria ancestralidade sem vergonha e sem submissão cultural. Um compositor que transforma vulnerabilidade em linguagem estética e faz da memória uma ferramenta de criação contemporânea.
Não por acaso, Mercedes Sosa reaparece simbolicamente em seu trabalho.
Mercedes representou durante décadas a voz da América Latina ferida pelas ditaduras, pela pobreza, pelo exílio e pela violência política. Sua música nunca foi apenas música: era denúncia, afeto e resistência coletiva. Quando Milo J recupera sua presença dentro de uma obra urbana de 2025, ele não está apenas homenageando uma cantora histórica. Está criando uma ponte entre gerações que se recusam a abandonar a identidade latino-americana diante da avalanche cultural do mercado global.
Porque enquanto boa parte da indústria transforma artistas em produtos instantâneos, Milo J parece tentar construir permanência.
E talvez seja justamente por isso que sua obra já ultrapassa o fenômeno adolescente ou o hype algorítmico.
Ele representa uma juventude latino-americana que começa a compreender que futuro também pode nascer das raízes.
Que modernidade não exige apagamento cultural.
E que a verdadeira inovação talvez esteja exatamente na coragem de voltar a olhar para aquilo que somos.
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*Amilton Farias é jornalista e editor-chefe do Portal Fronteira Livre
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Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.
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