CURITIBA (PR) — O anúncio do Plano Safra 2026/27, feito pelo governo federal nesta terça-feira (30), foi recebido com preocupação pelo Sistema FAEP. Embora o programa destine R$ 525,1 bilhões ao financiamento da agricultura empresarial — o maior volume já anunciado para o setor —, a entidade avalia que as condições de acesso ao crédito continuam distantes da realidade enfrentada pelos produtores rurais.
Somados aos R$ 85 bilhões destinados à agricultura familiar, os recursos alcançam R$ 610 bilhões. Ainda assim, o montante ficou abaixo dos R$ 670 bilhões defendidos pelo Sistema FAEP e por outras entidades representativas do Paraná durante as discussões preparatórias do plano.
Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, o valor anunciado perde efetividade quando não é acompanhado de linhas de financiamento acessíveis e compatíveis com o cenário vivido no campo.
“De nada adianta divulgar um Plano Safra com valor recorde se não há mecanismos para que isso se transforme em investimentos no campo. Não passa de pura ilusão, de um número no papel. Precisamos de juros, condições, linhas e ferramentas de acordo com a realidade dos nossos produtores rurais, para que a agropecuária continue crescendo e colaborando para a economia do país.”
Segundo Meneguette, a principal preocupação do setor está nas taxas de juros, nas dificuldades enfrentadas pelos produtores para contratar financiamentos e na redução dos recursos destinados ao seguro rural.
“Nossa preocupação envolve os juros ainda altos e as dificuldades que os nossos produtores rurais estão tendo para acessar as linhas, além dos consecutivos cortes no orçamento, principalmente do seguro rural.”
Antes do lançamento do Plano Safra, o Sistema FAEP, o Sistema Ocepar, a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab) e a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná (Fetaep) encaminharam ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) uma proposta conjunta defendendo a ampliação dos recursos, juros menores, fortalecimento do seguro rural e mecanismos para renegociação das dívidas acumuladas pelos produtores.
Juros continuam no centro das críticas
Nas linhas de custeio anunciadas pelo governo federal, os grandes produtores terão acesso a financiamentos com juros de 12,5% ao ano. Para os médios produtores enquadrados no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), a taxa será de 9% ao ano.
O Sistema FAEP defendia limites de 10,5% para as linhas de crédito em geral e de 7% para o Pronamp. Na avaliação da entidade, a redução em relação ao ciclo anterior não altera o principal obstáculo enfrentado pelos produtores.
“Embora tenha havido redução em relação ao ciclo anterior, as taxas permanecem altas. Em um cenário marcado por juros elevados, margens de lucro reduzidas, sucessivas perdas climáticas e aumento do endividamento no campo, a disponibilidade de recursos, mesmo sendo recorde, perde relevância caso as linhas de financiamento permaneçam pouco atrativas ou inacessíveis”, afirma Meneguette.
O novo Plano Safra reserva R$ 72,6 bilhões para operações do Pronamp com taxas controladas de 9% ao ano. O limite de enquadramento permanece em renda bruta anual de até R$ 3,5 milhões. O programa também passa a permitir o financiamento da aquisição de matrizes reprodutoras e estende às operações de comercialização a mesma taxa aplicada ao custeio.
Mesmo com essas mudanças, o Sistema FAEP avalia que os resultados tendem a ser limitados caso o crédito continue distante da capacidade financeira dos produtores.
“O Plano Safra 2025/26 contratou menos de 80% do volume disponibilizado, demonstrando que não adianta muito recurso se o crédito não está sendo contratado. Hoje o produtor está endividado e, sem linhas de crédito atrativas e um seguro rural fortalecido, qualquer frustração de safra compromete a capacidade de quitar o financiamento”, afirma o presidente da entidade.
Renegociação das dívidas segue fora do plano
Outro ponto considerado estratégico pelo Sistema FAEP é a criação de uma política permanente para renegociação dos passivos acumulados pelos produtores rurais nos últimos anos. Segundo a entidade, apesar de o tema figurar entre as principais reivindicações do setor, a medida não foi contemplada no lançamento do Plano Safra 2026/27.
Para Meneguette, a recuperação da capacidade de investimento no campo depende não apenas da oferta de novos financiamentos, mas também de soluções para o endividamento provocado por sucessivas perdas de safra.
“O setor passou por sucessivas quebras de safra, acumula endividamento e precisa de fôlego para continuar produzindo, não de novos passivos que possam comprometer ainda mais sua capacidade de investimento.”
Seguro rural volta ao centro do debate
O Sistema FAEP também criticou a ausência de medidas relacionadas ao seguro rural durante o lançamento do Plano Safra. A entidade considera que o instrumento é essencial para reduzir os impactos das perdas provocadas por eventos climáticos e garantir maior estabilidade à produção agropecuária.
Nas propostas encaminhadas ao governo federal, o Sistema FAEP defendeu a destinação de R$ 4 bilhões ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Para a entidade, fortalecer o programa significa ampliar a segurança econômica dos produtores e reduzir os riscos para o sistema de crédito rural.
“O primeiro interessado em que o produtor tenha seguro rural é o banco, porque isso garante que o financiamento será pago. O produtor também ganha essa segurança. Quando o governo não investe no seguro rural, deixa agricultores e pecuaristas desamparados e coloca em risco a agropecuária brasileira”, conclui Meneguette.
Para o Sistema FAEP, o Plano Safra mantém um volume expressivo de recursos, mas deixa em aberto desafios considerados decisivos para a atividade rural. Na avaliação da entidade, ampliar o crédito sem enfrentar o custo do financiamento, fortalecer o seguro rural e criar mecanismos para renegociar dívidas limita o alcance da política agrícola e reduz seu potencial de estimular novos investimentos no campo.





















