Misiones (Argentina) — A ameaça de despejo contra a comunidade Ñandé Kokué, ligada ao Movimento Camponês de Libertação (MCL), reacende um dos debates mais antigos da América Latina: a terra deve servir a quem nela vive, trabalha e produz alimentos ou a quem acumula grandes extensões como patrimônio?
A ordem judicial coloca em risco a permanência de 112 famílias camponesas que vivem e trabalham no território onde funciona a Escola Comunitária Ñandé Kokué, na província argentina de Misiones. Caso a medida seja executada, essas famílias poderão perder suas casas, suas áreas de cultivo e a escola que se tornou referência de educação popular e organização comunitária na região.
Para os moradores e movimentos sociais que acompanham o caso, a disputa não pode ser reduzida a uma questão jurídica ou patrimonial. O que está em jogo é a continuidade de um projeto coletivo construído ao longo de anos de trabalho, produção de alimentos, educação popular e permanência no campo.
Mais do que uma área em disputa, Ñandé Kokué representa uma experiência concreta de vida comunitária. É um território onde famílias produzem alimentos, educam seus filhos, compartilham conhecimentos e constroem alternativas diante de um modelo rural marcado pela concentração de terras e pela expulsão permanente de populações camponesas.

No centro dessa experiência está a Escola Comunitária Ñandé Kokué. Mais do que uma estrutura de ensino, ela funciona como o coração da comunidade. É ali que crianças, jovens e adultos estudam a partir da realidade do campo, fortalecem vínculos comunitários e constroem perspectivas de futuro sem precisar abandonar a terra onde nasceram ou escolheram viver.
Se o despejo for executado, não será apenas uma área rural que desaparecerá do mapa. Famílias inteiras poderão perder suas casas, seus locais de trabalho e a escola onde seus filhos estudam. Agricultores que hoje produzem alimentos poderão ser obrigados a abandonar a terra sem qualquer garantia sobre onde viverão ou como reconstruirão suas vidas.
A situação mobilizou movimentos sociais, sindicatos, educadores e organizações de direitos humanos dentro e fora da Argentina. Para esses setores, a ameaça contra Ñandé Kokué ultrapassa os limites de um conflito local e revela uma realidade presente em diferentes regiões da América Latina: enquanto comunidades lutam para permanecer na terra que cultivam, grandes extensões continuam concentradas sob controle de poucos grupos econômicos.
Os apoiadores da comunidade afirmam que a terra não pode ser tratada apenas como mercadoria. Ela é moradia, trabalho, escola e alimento. Retirar essas famílias significa interromper uma experiência construída coletivamente e enfraquecer um modo de vida baseado na agricultura familiar, na cooperação e na permanência das populações rurais em seus territórios.
É por isso que a mobilização em defesa de Ñandé Kokué também está ligada à soberania alimentar. Em termos simples, trata-se do direito dos povos produzirem sua própria comida e decidirem como alimentar suas comunidades. Para os movimentos camponeses, expulsar agricultores que trabalham a terra significa fortalecer um modelo que concentra riqueza e território nas mãos de poucos, ao mesmo tempo em que reduz a autonomia de quem produz os alimentos que chegam diariamente às mesas da população.

A ameaça de despejo ocorre em uma região marcada por conflitos fundiários históricos. Lideranças envolvidas na mobilização afirmam que o caso expõe uma contradição persistente: enquanto milhares de famílias rurais enfrentam dificuldades para acessar ou permanecer na terra, enormes áreas permanecem concentradas nas mãos de poucos proprietários.
Para os apoiadores da escola, a questão central é simples: a terra deve cumprir uma função social. Deve servir para gerar vida, trabalho, educação e alimento. Quando famílias que produzem são expulsas, não se perde apenas uma área rural. Perde-se uma experiência coletiva, enfraquece-se a agricultura familiar e amplia-se um modelo que concentra riqueza de um lado e exclusão do outro.
As organizações que acompanham o caso alertam que os impactos do despejo não atingiriam apenas as 112 famílias ameaçadas. A medida pode aprofundar o êxodo rural, enfraquecer experiências de educação popular e reduzir a capacidade de produção de alimentos em uma região onde muitas comunidades dependem diretamente da agricultura familiar.
Em uma das manifestações divulgadas durante a mobilização, os apoiadores resumiram o sentimento da comunidade em uma frase direta: “A terra não é um luxo nem um capricho. É um direito”.
A campanha em defesa de Ñandé Kokué já reúne sindicatos, movimentos camponeses, organizações populares, entidades religiosas e defensores dos direitos humanos. O objetivo é impedir o despejo e garantir que as famílias permaneçam no território onde construíram suas vidas.
Para os moradores, a luta não é apenas pela permanência de uma escola ou pela posse de uma área rural.
É a defesa do direito de viver, trabalhar, estudar e produzir alimentos na terra onde fincaram suas raízes.
Serviço
Campanha Internacional de Solidariedade à Comunidade Ñandé Kokué
Organizações sociais, movimentos camponeses e entidades de direitos humanos promovem uma mobilização internacional contra o despejo da comunidade.
Assine e apoie a campanha:
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdLOA5C4gZe_9sygsjnHbAS0-K1Wzw_YvCO1zki2pYGpA_Piw/viewform
A mobilização também solicita manifestações públicas de apoio à permanência das famílias no território e à continuidade das atividades da Escola Comunitária Ñandé Kokué.

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