BRASÍLIA, DF — A inclusão da dor crônica no tratamento da depressão no SUS e no sistema de saúde pode transformar a forma como a medicina pública lida com pacientes diagnosticados com transtornos mentais graves. Um artigo publicado na prestigiada revista Nature Mental Health aponta que parte da população classificada como portadora de depressão resistente a medicamentos pode, na verdade, enfrentar quadros dolorosos crônicos que sequer foram mensurados pela equipe médica. A descoberta lança luz sobre a necessidade de políticas públicas de saúde mais integradas e eficientes, especialmente no atendimento prestado na atenção primária e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do Sistema Único de Saúde.
A pesquisa alerta que a dor crônica é uma condição comum entre pessoas com depressão e atua reduzindo diretamente a resposta do organismo aos antidepressivos convencionais. Apesar dessa forte correlação, a dor não faz parte da definição formal de depressão resistente, fica de fora dos questionários clínicos mais utilizados na rotina dos consultórios e costuma ser excluída dos ensaios científicos que orientam as diretrizes de saúde. Quando a medicação não atinge o efeito esperado, o protocolo médico tradicional tende a questionar a eficácia do remédio, raramente investigando se existe uma dor física contínua impactando o quadro do paciente. Os autores reforçam, contudo, que as pessoas não devem alterar ou interromper seus tratamentos medicamentosos por conta própria com base no estudo.
Coautor do trabalho, o médico e pesquisador da Harvard Medical School, Nilson Mendes Neto, destaca que há uma diferença substancial entre a ciência saber superficialmente que o paciente sente dor e essa condição ser mensurada e incorporada formalmente à avaliação da depressão. “Hoje, a classificação da depressão resistente ao tratamento se baseia principalmente na falha de tratamentos antidepressivos realizados em dose e duração adequadas. A presença, intensidade e impacto funcional da dor não fazem parte formal dessa definição. Além disso, instrumentos amplamente utilizados para avaliar depressão, como o PHQ-9 e a escala de Hamilton, não avaliam diretamente a carga de dor”, afirma o especialista, que atua na interface entre saúde mental e dor crônica.
Mesmo quando os profissionais de saúde identificam o relato de desconforto físico, a ausência de parâmetros padronizados impede dimensionar o quanto a dor contribui para a persistência dos sintomas depressivos ou para a aparente falha terapêutica. “Esse é justamente o ponto que levantamos: não estamos dizendo que os médicos simplesmente ignoram a dor. Estamos mostrando que a arquitetura usada para medir e classificar a depressão resistente não exige que ela seja sistematicamente considerada”, pontua Nilson. Os pesquisadores esclarecem que não afirmam que a maioria dos casos refratários seja explicada exclusivamente pela dor, nem negam que existam pacientes com depressão verdadeiramente resistente acompanhada de dor, mas argumentam que uma condição dolorosa oculta altera a resposta aos remédios e a própria interpretação clínica do quadro. “Não sabemos qual proporção dos pacientes pode estar nessa situação. E ninguém consegue responder adequadamente a essa pergunta hoje, justamente porque a dor não é medida de maneira sistemática”, ressalta o médico.
Impacto direto nas políticas públicas de saúde mental no SUS
A discussão traz desdobramentos práticos e orçamentários urgentes para a gestão da saúde pública no Brasil. A investigação sistematizada da dor não exige tecnologias de alto custo para ser implementada na rotina do SUS. A adoção de triagens estruturadas na atenção primária, nos ambulatórios especializados e nos CAPS permitiria identificar se o fator físico merece intervenção antes de se diagnosticar precocemente a refratariedade da doença e migrar para condutas mais invasivas ou dispendiosas.
A medida ganha relevância no contexto social brasileiro, no qual parcela expressiva dos usuários da rede pública convive simultaneamente com depressão e problemas como lombalgia, osteoartrite, fibromialgia e neuropatias. Hoje, essas patologias costumam ser acompanhadas em serviços fragmentados e sem comunicação direta. “Muitas vezes, esses problemas são acompanhados em serviços diferentes, embora o paciente seja o mesmo. Nosso argumento reforça a importância de integrar melhor saúde mental e cuidado da dor”, pondera Nilson Mendes Neto.
Sob a ótica da gestão e da eficiência dos recursos públicos, a proposta busca evitar a escalada desnecessária para procedimentos complexos e medicamentos de alto custo antes de diagnosticar fatores clínicos tratáveis. A medida não visa atrasar condutas eficazes para casos graves, mas sim elevar a precisão do diagnóstico no SUS para direcionar cada cidadão ao tratamento adequado. “Em resumo, a implicação para o SUS é bastante concreta: antes de tornar o tratamento mais complexo, precisamos ter certeza de que a avaliação não deixou de medir algo importante e potencialmente tratável”, conclui o pesquisador. O estudo também conta com a assinatura de Brendon Stubbs, do King’s College London, e de Jessika Mendes, da NeuroPsy.




















