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“Não são bem-vindos”: carta a Milei ataca desregulamentação

Com queima de boneco e tratores na rua contra Milei, ervateiros denunciam alta de 90% em insumos e forte prejuízo na colheita.

Tratores e caminhões de produtores de erva-mate estacionados na rodovia durante a passagem do presidente argentino. Foto: MisionesOpina

Puerto Iguazú, Argentina – Enquanto o presidente Javier Milei passa a sexta-feira fechado em um hotel de luxo com ministros e banqueiros em Puerto Iguazú, pequenos produtores rurais de Misiones entregaram uma resposta dura à sua presença na fronteira: “Vocês não são bem-vindos à Terra da Erva-Mate”. Em carta aberta oficial datada de 1.º de setembro, cinco organizações históricas do setor denunciam que a desregulamentação da erva-mate promovida pelo governo federal está destruindo a principal atividade da região e usando os colonos e os trabalhadores rurais como moeda de troca para engordar os lucros dos grandes moinhos.

O repúdio à visita do presidente espalhou-se por toda a província antes mesmo de seu desembarque na fronteira. Na quarta-feira anterior, uma grande manifestação popular tomou a Praça 9 de Julio, em Posadas, capital de Misiones. Convocado pela Multissetorial pela Soberania de Misiones, o ato reuniu moradores, militantes, bandas de música e intervenções artísticas em uma vigília cultural que começou às 18h. A praça concentrou aposentados exigindo aposentadorias dignas, trabalhadores demitidos, jovens sem emprego formal, famílias prejudicadas pelos cortes na assistência a pessoas com deficiência e pequenos agricultores atingidos pelas medidas de livre mercado.

O momento central do protesto na capital foi a queima de um boneco em praça pública, simbolizando os impactos das políticas neoliberais da Casa Rosada. A figura incendiada representava o avanço do desemprego e o corte no acesso a direitos essenciais, como alimentação, água, energia, transporte, saúde e educação públicas. Além do desmonte do Instituto Nacional da Erva-Mate (INYM), os manifestantes denunciaram os ataques e cortes de orçamento contra instituições científicas e agrícolas nacionais, como o INTA e o CONICET.

O documento entregue em Puerto Iguazú reforça essa mesma insatisfação popular. A carta é assinada por Julio Petterson (Associação Civil de Produtores Ervateiros do Norte), Hugo Sand (Associação de Produtores Agropecuários de Misiones), Antonio Franza (Associação de Produtores Ervateiros e Tareferos do Alto Uruguai), Jorge Skripczuk (Associação Civil Impulso Ervateiro) e Salvador Torres (Movimento Agrário de Misiones). Juntos, eles representam quem realmente trabalha na terra contra o domínio dos grandes secadores e indústrias.

As entidades afirmam que a desregulamentação da atividade, imposta pelo Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) 70/2023, acabou com a proteção aos colonos e aos tareferos — os trabalhadores braçais que fazem a colheita. Sem o poder do INYM de fixar um preço mínimo, o valor pago pelo quilo da folha verde despencou para algo entre 180 e 285 pesos. Para piorar, os compradores estão pagando com cheques para 90, 120 dias ou até mais. O dinheiro mal cobre a metade do custo de produção, gerando prejuízo direto para quem vive da roça.

Ao mesmo tempo em que o preço da erva cai, as despesas não param de crescer. A carta aponta que os custos com diesel, adubos, energia elétrica, manutenção da lavoura e frete subiram mais de 90% no último ano. Sem dinheiro no bolso, o produtor não consegue adubar nem limpar o mato das plantações, o que derrubou a produção: entre janeiro e julho de 2026, a colheita caiu mais de 11%. Foram 71,5 milhões de quilos de folha verde colhidos a menos em comparação ao mesmo período de 2025.

A crise atinge em cheio a contratação e o salário dos tarefeiros. As entidades explicam que a taxa da Corresponsabilidade Sindical — cobrada por lei para cobrir direitos trabalhistas — aumentou cinco vezes. O custo passou de uma média de 13 pesos por quilo em 2023 para quase 44 pesos em 2026. Com a folha verde valendo pouco e os encargos pesando, as propriedades deixam de contratar ajudantes, espalhando desemprego pelas cidades do interior.

Os colonos também denunciam o desmonte das áreas de fiscalização e registro do INYM. Sem fiscais na rua e sem normas rígidas, o mercado foi liberado para meia dúzia de grandes empresas, deixando o consumidor desprotegido quanto à qualidade, higiene e segurança do produto que vai para a cuia e para a mesa.

Do lado de fora do fórum onde Milei discursa em Puerto Iguazú, tratores e caminhões seguem concentrados nas margens das rodovias. A carta dos trabalhadores encerra com um aviso claro ao governo: “Não há mal que dure 100 anos”. As cinco entidades prometem manter a mobilização para recuperar o poder de fiscalização do INYM e garantir o sustento das famílias da erva-mate.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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